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8 de nov. de 2011

Rede Globo com a polícia da Ditadura contra os estudantes

8 nov
 

Em uma reportagem de seis minutos e meio, a Rede Globo, através de seu principal telejornal, mostrou mais uma vez com clareza de que lado da sociedade está. Nunca esteve nem nunca estará ao lado dos oprimidos, dos contestadores, nunca estará ao lado da mudança. Está ao lado dos opressores, das elites, da alienação e da conservação reacionária. Nesta terça-feira esteve ao lado de uma polícia militarizada, herdada da Ditadura Militar, e esteve contra os estudantes que protestavam contra a truculência dessa polícia.




A reportagem narra o caso em que a USP foi ocupada pela Polícia Militar e estudantes saíram presos de sua universidade. É o mundo ao avesso, que tanto agrada a esse setor da mídia. A narração, obviamente, também foi ao avesso: “A Polícia Militar retirou os estudantes que haviam invadido (…), começou Fátima Bernardes, antes de chamar a reportagem de José Roberto Burnier.

31 de ago. de 2010

Florestan Fernandes, um intelectual do povo

Conheça a trajetória do sociólogo que não limitou seu conhecimento e sua militância aos muros da universidade.

Por Glauco Faria/ Revista Fórum


No último dia 10 de agosto, completaram-se 15 anos da morte do sociólogo Florestan Fernandes. Obviedade dizer que se trata de um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve, mas é preciso ressaltar que, além da sua rica produção, ele não a confinou aos muros da universidade. Como lembra Barbara Freitag, professora titular do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), no artigo “Florestan Fernandes: revisitado”, ele conseguiu encarnar o sentido da palavra “intelectual” utilizado por Jürgen Habermas, como aquele que “se caracteriza, entre outras coisas, pelo fato de que abre mão de qualquer dimensão elitista, e de que fala, no espaço público, não como um intelectual de partido, ou como um conselheiro do rei, mas somente em seu próprio nome, como cidadão, naturalmente com o objetivo de convencer os outros”.

Homem crítico e conectado com as grandes questões do seu tempo, o sociólogo paulista teve contato muito cedo com a realidade brasileira. Começou a trabalhar aos seis anos como engraxate e passou por diversas outras ocupações para auxiliar no sustento próprio e da família. Filho de uma migrante portuguesa que prestava serviços domésticos, seu nome de batismo foi inspirado no personagem principal da ópera Fidélio, única escrita por Beethoven. Mas ganhou da patroa de sua mãe – também sua madrinha –, Hermínia Bresser de Lima, a alcunha de “Vicente”, pois a origem estrangeira do nome do futuro intelectual incomodava a matriarca da aristocrática família. Este, além de outros atos que denunciavam a perspectiva senhorial e autoritária da elite brasileira, fariam parte das reflexões de Florestan mais tarde.

Com uma infância e adolescência ocupadas com o trabalho, o estudo ficou em segundo plano e aos 9 anos abandonou as salas de aula, voltando apenas aos 17, quando fez o madureza, uma espécie de curso supletivo. Aos 21, entrou no vestibular para a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e, no começo de 1941, iniciou o curso de graduação em Ciências Sociais. No entanto, teria muitas dificuldades nesse ingresso na vida acadêmica, confessadas no livro A Sociologia no Brasil (Editora Petrópolis), que ajudariam a formar o perfil e atuação do intelectual:

“A cultura dos meus mestres estrangeiros me intimidava. Eu pensava que jamais conseguiria igualá-los. O padrão era demasiado alto para nossas potencialidades provincianas – para o que o ambiente poderia suportar – e especialmente para mim, com a minha precária bagagem intelectual e as dificuldades materiais com que me defrontava, as quais roubavam grande parte do meu tempo e das minhas energias do que gostaria de fazer. Contudo, como me propunha a ser um professor de nível médio, as frustrações e os obstáculos não interferiam no meu rendimento possível. O desafio era trabalhado psicologicamente e, na verdade, reduzido à sua expressão mais simples: as exigências diretas das aulas, das provas e dos trabalhos de aproveitamento. Com isso, empobrecia o meu horizonte intelectual e humano. No entanto, não poderia sobrepujar-me e resolver os meus problemas concretos sem essa redução simplificadora, que se corrigiu por si própria, na medida em que progredi como estudante e adquiri uma nova estatura psicológica. Em suma, o Vicente que eu fora estava finalmente morrendo e nascia em seu lugar, de forma assustadora para mim, o Florestan que eu iria ser”.

A questão do negro

Freitag sugere uma divisão da obra de Florestan em três fases. A primeira se situa entre 1941 e 1968, antes da sua aposentadoria compulsória decretada pelo regime militar. No período, escreveu obras como Organização social dos tupinambás (1949) e A função social da guerra na sociedade tupinambá (1952), Fundamentos empíricos da explicação sociológica (1959) e A integração do negro na sociedade de classes (1965). Esta última, resultado de sua tese de cátedra em Sociologia na USP, é significativa por dar uma nova direção ao estudo da situação racial no Brasil, contrapondo-se a muitas proposições apresentadas, por exemplo, em Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.

O livro trata da abolição e de como ela foi incompleta, partindo da análise do que ocorreu na cidade de São Paulo. Apesar da libertação, o Estado brasileiro não garantiu uma igualdade de fato entre os negros recém-libertos e os brancos, estabelecida apenas no plano jurídico. Para o autor, era preciso observar a herança escravista, evidenciando o preconceito racial como um dos aspectos de um processo que marca as relações sociais no Brasil, ligadas ao desenvolvimento do capitalismo no país.

A reinterpretação de Florestan a respeito dessa questão remete a um traço marcante da sua trajetória, que é a análise da sociedade a partir da ótica da exclusão. "Os negros são os testemunhos vivos da persistência de um colonialismo destrutivo, disfarçado com habilidade e soterrado por uma opressão inacreditável. O mesmo ocorre com o indígena, com os párias da terra e com os trabalhadores semilivres das cidades", explica a socióloga Heloísa Fernandes, filha de Florestan.

Sua preocupação com as relações raciais, no entanto, aparece antes de A integração do negro na sociedade de classes. No início dos anos 50, a Unesco realizava uma pesquisa no Brasil querendo desvendar como o país se constituía em um contraponto positivo à segregação racial existente nos Estados Unidos já que aqui, supostamente, a convivência entre negros e brancos era mais harmoniosa, mesmo levando-se em conta o recente passado escravista. Apesar dos recursos escassos, principalmente diante do tamanho do estudo, Roger Bastide convenceu seu colega de USP a aceitar a empreitada.

Conforme relatado por Haroldo Ceravolo Sereza, autor de Florestan – a inteligência militante

As reações aos resultados da pesquisa foram narradas pelo próprio sociólogo no Seminário de Cultura Brasileira, realizado em São Paulo, em 1984, cuja exposição está em Florestan Fernandes – Leituras e Legados (Global Editora). “De imediato, fomos considerados `tendenciosos` e responsáveis pela `deformação da verdade` em vários níveis da sociedade circundante. Houve mesmo uma ocorrência típica. O diretor de uma escola de sociologia que afirmou publicamente que Bastide e eu estávamos introduzindo ‘o problema’ no Brasil! A comunidade negra, por sua vez, exagerou a importância da nossa contribuição. Estava maravilhada com o fato de termos rompido aquele isolamento psicossocial e histórico, feito dele uma arma da razão e da crítica. Principalmente, ficaram encantados com o fato de suas lutas terem encontrado resposta e confirmação. Parecia-lhes que a sociologia lhes abria uma `ponte de justiça`, acenando com a perspectiva de que aquilo que não se convertera em história poderia vir a sê-lo no futuro próximo.”

A revolução burguesa que não houve

Em abril de 1969, um acontecimento traumático afetou a trajetória de Florestan. Ele perdeu sua cátedra de Sociologia na USP, sendo aposentado compulsoriamente pelo regime militar, em razão do Ato Institucional nº 5. Aquilo, segundo suas próprias palavras, foi "um processo de desabamento de sua relação com o mundo intelectual". A ditadura havia lhe tirado sua razão de ser e, impedido de dar aulas no Brasil, aceitou um convite da Universidade de Toronto para lecionar e rumou, sem sua família, para o Canadá. “Florestan não podia mais aparecer em público, escrever para jornais, manifestar sua oposição à ditadura que governava mediante odiosos `atos institucionais`. Reagiu de duas formas `radicais` a essa limitação: aceitou uma cátedra no Canadá e passou a usar os conceitos marxistas, falando em `luta de classes` e `revolução`, processos sociais a serem alimentados para superar a ditadura imposta no Brasil”, analisa Freitag.

O período de exílio durou até 1971, mas mesmo de volta, sua clausura prosseguiu, como ele mesmo relatou. “Fui para Toronto e fiquei lá pensando que podia lutar ali contra a ditadura. Depois, descobri que lá não se luta contra a ditadura. Os que nos ouviam eram pessoas que eu não precisava convencer (...). O esforço lá, ia na direção de fortalecer a ditadura. Por isso é que pensei: Eu volto para o Brasil e lá eu vou poder lutar. Vim para cá e não pude lutar coisa alguma, porque realmente de 73 em diante vivi dentro de um isolamento tremendo. Até 1975 eu tinha o que fazer dentro da produção anterior. Podia viver, assim, o isolamento de maneira equilibrada. Mas, depois, não. Depois eu resvalei. E a radicalização pela qual eu passei engendrou o desequilíbrio, que tive de enfrentar como pessoa. Não vá pensar que um intelectual, um sociólogo, está livre das contingências que afetam todos os seres humanos. E na medida em que eu estava isolado eu vi amigos e companheiros que sequer se lembravam de mim, eu fiquei prisioneiro da família. (...) Dei alguns cursos no Sedes e um cursinho sobre a teoria do autoritarismo, uma coisa intermediária. De repente, me vejo diante de um curso e da necessidade de engolir a condição de professor, que eu não queria engolir de novo. Realmente o que eu queria era exatamente voltar a uma atividade militante e só militante. Daí essa tensão, essa frustração.”

Florestan, como disse certa vez, viajou como “sociólogo e socialista” e retornou “socialista e sociólogo”. E é nesse período que publica uma de suas obras cruciais, A Revolução Burguesa no Brasil, que havia começado a escrever, com base em anotações de aulas, em 1966. O objetivo, de acordo com a nota explicativa do autor, era dar uma “resposta intelectual à situação política que se criara com o regime instaurado em 31 de março de 1964”. Incompleto devido à sua aposentadoria, ele retomou o trabalho, redigindo a terceira parte do livro no segundo semestre de 1973.

“Escrito em um período de maturidade intelectual, praticamente todas as reflexões anteriores dele estão condensadas nessa obra”, comenta Lidiane Soares Rodrigues, doutoranda em História na USP. “Hoje, ele tende a ser lido pelo enfoque das relações internacionais, porque é o tema mais candente e se discute muito atualmente a política externa, mas quando foi escrito a questão eram as possibilidades de formação da sociedade moderna na periferia do capitalismo e as formas de inserção do Brasil no cenário internacional como um país independente, autônomo, capaz de tomar decisões em benefício próprio”, completa. Falava-se, na prática, da constituição de uma sociedade moderna, aberta à ascensão social pelo mérito e na qual são concedidas condições minimamente equivalentes de acesso aos bens sociais.

Mas esse modelo de sociedade, na visão de Florestan, não prosperou no Brasil. “Isso não se realizou porque nossa burguesia é conservadora e nossos padrões de sociabilidade também são extremamente conservadores”, explica Lidiane. Aqui, criaram-se as condições para que se desenvolvesse um “capitalismo dependente”, que seria, segundo Rachel Aguiar Estevam do Carmo, mestranda pela Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, fruto da “chamada dupla articulação, que seria o entrosamento econômico de maneira desigual e dependente entre os países que possuem maior desenvolvimento em detrimento dos países que possuem relações sociais ainda estamentais”.

Na verdade, a revolução burguesa clássica não havia sido realizada no Brasil e traços sociais do passado, representados, por exemplo, pelas relações senhoriais, conviviam dentro de uma nova ordem econômica competitiva. Os novos atores econômicos não precisaram brigar com os antigos, mas os absorveram, passando a adotar também parte de seus métodos de dominação não-capitalista.

Para Florestan, a revolução que não havia sido feita pela burguesia nacional – e sem a qual não seria possível superar as mazelas sociais – teria que ser feita pelos trabalhadores. Mas não era algo simples. “Por isso que depois, nos anos 80, ele vai gostar de se denominar como leninista, pois acredita que, no caso da periferia do capitalismo, revolução burguesa e socialista se confundem. Caberia ao sujeito proletário garantir ambas, seria na prática uma sobretarefa. A burguesia não fez sua tarefa histórica e restava ao proletariado fazer as duas”, explica Lidiane.

“Quem leu a obra mais complexa de Florestan, A Revolução Burguesa no Brasil, não pode deixar de dar razão aos diagnósticos feitos pelo autor, denunciando os `obstáculos` e `resistências` criados pelas classes detentoras do poder, via de regra brancos, para concretizar uma sociedade democrática justa, igualitária e desenvolvida”, reflete Barbara Freitag, em entrevista concedida por e-mail, questionando em seguida: “Será que a nação brasileira, integrando índios, negros e brancos, somente se realizaria por intermédio de uma verdadeira revolução socialista?”.

O “político-revolucionário” e o PT

Em 1975, Florestan passa por uma cirurgia de próstata e, ao receber uma transfusão de sangue, contrai o vírus da hepatite C, responsável por um processo contínuo de piora da sua saúde. Ao mesmo tempo adota uma postura mais publicista que já se acentuava desde sua cassação, em uma fase de sua produção chamada por Freitag de “político-revolucionário”. Nesse período, que duraria até 1986, quando se elege deputado federal constituinte pelo PT, ele “não somente muda de referencial teórico e conceitual, apoiando-se no materialismo histórico de Marx e Lenin, como se torna menos "científico" e mais polêmico, político e revolucionário.

Fernandes percebera, na própria carne, que o indivíduo, mesmo altamente dotado e consciente para fazer o diagnóstico correto do seu tempo, não tem poder de transformação da sociedade como indivíduo isolado. Seu potencial de transformação da realidade global depende de conjunturas e tendências internacionais, nas quais o indivíduo singular submerge, sem poder de intervenção ou transformação”, analisa Freitag no artigo “Florestan Fernandes: revisitado”.

“Certamente, essa ruptura epistemológica não se deu da noite para o dia, como foi sua aposentadoria compulsória em decorrência do AI-5 de 1968. Já no Florestan reformista se encontrava o embrião do Florestan revolucionário. Mas talvez esse último não se desenvolvesse de forma tão radical e consistente em direção ao socialismo se a conjuntura política tivesse sido outra, ou melhor, se tivesse continuado o pacto populista-desenvolvimentista”, pondera a socióloga.

Nesse sentido, Heloísa Fernandes explica que seu pai nunca foi um sociólogo dogmático. “Ele manteve a ideia de que a sociologia clássica, que ele denominava sociologia da ordem, detinha e expressava potencialidades criadoras, vinculadas à história e à inquietação intelectual, diferentemente da nova sociologia da ordem, aquela da fase monopolista do capitalismo, que perde a dimensão histórica e que ele denomina de `sociologia de defesa ativa da ordem`; quando o sociólogo tende a se tornar mero `paladino da ordem`, que ele concebe como um `problema técnico` e não mais histórico. Ela cita um trecho de A Natureza Sociológica para expressar essa visão. "Os computadores não invadiram, pois, apenas os `meios de conhecimento` da sociologia. Eles impregnaram a imaginação sociológica, levando-a a praticar uma ` redução cibernética da realidade` . Em consequência, a ordem deixa de ser um fato histórico (...)".

Assim, segundo Heloísa, para Florestan a sociologia clássica, inclusive a da ordem, elabora teorias que permitem a construção, descrição e interpretação da realidade social. Suas categorias estão impregnadas de historicidade e o sociólogo a elas recorre como suas "caixas de ferramentas". “Ele nunca defendeu a ideia de que os métodos de investigação e interpretação devessem ser escolhidos por critérios políticos. São os problemas investigados que determinam os instrumentos de investigação”, aponta. “Aliás, eu mesma defendi na minha apresentação Florestan Fernandes: um sociólogo socialista ao livro Dominación y Desigualdad: el dilema social latinoamericano que: `Graças a este extraordinário conceito de ordem social, o sociólogo se manteve atento à exclusão da maioria da plena cidadania e o socialista não submergiu numa narrativa teleológica das classes sociais. Sua perspectiva sociológica manteve o foco nos condenados da terra, e estes estão aquém da classe operária, ou para além dos muros da ordem social competitiva, continuam ali, de onde ele próprio emergiu.`”

Em maio de 1986, uma nova mudança na trajetória de Florestan. Após uma reunião com Lula, Eduardo Suplicy e José Dirceu, o sociólogo aceita o convite para ingressar no Partido dos Trabalhadores. Em entrevista descrita por Ceravolo Sereza, concedida ao jornal Convergência Socialista, que representava à época a esquerda trotskista do partido, ele justifica a escolha pela agremiação. “Havia poucas alternativas... eu poderia ter entrado no PT antes, se o PT tivesse antes se definido em termos de posições socialistas mais esquerdistas”. Eleito parlamentar com 50.024 votos, a quarta melhor votação petista em São Paulo – atrás de Lula, Plínio de Arruda Sampaio e Luiz Gushiken –, apesar de manter sua postura socialista, disse em uma entrevista de fevereiro de 1987, ao Jornal do Brasil, que era possível fazer composições com outros partidos em alguns pontos. “No que diz respeito à defesa da natureza como riqueza social para o Brasil, por exemplo, eu, que pertenço à extrema esquerda do PT, falo da mesma forma que Fábio Feldmann, eleito pelo PMDB.”

Na Assembleia Constituinte, ocupou a subcomissão de Educação, Cultura e Esportes, tendo apresentado um total de 96 emendas, 34 das quais foram integradas ao texto final, dentre elas a que garante a autonomia das universidades. Em seu segundo mandato, em 1993, apesar de o PT ter decidido não participar da revisão constitucional, Florestan apresentou uma proposta de emenda para incluir políticas afirmativas de inclusão da população negra à Constituição, uma forma, segundo disse à época, de “corrigir uma injustiça que desgraça as pessoas e as comunidades negras”. Mas um acordo entre líderes partidários fez com que a emenda não entrasse na pauta de votação, e parte do que o sociólogo vislumbrava no texto só sairia do papel mais de uma década depois.

No parlamento, sua principal preocupação foi a educação. Isso o leva a um embate, em seu segundo mandato, com o senador e antropólogo Darcy Ribeiro (PDT), durante as discussões para a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). “O papel dele nos embates que culminaram com a elaboração da LDB foi fundamental”, avalia Kátia Lima, doutora em Educação e professora da Universidade Federal Fluminense. “Os debates realizados no parlamento e nas atividades organizadas pelo Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública, importante polo aglutinador dos movimentos sociais, sindicais e estudantis, em defesa da educação pública e gratuita, culminam na versão elaborada pelo senador Cid Sabóia. Estes debates adquirem novos rumos com a apresentação, em 1992, de um substituto para o projeto de LDB elaborado por Darcy Ribeiro. O senador, ignorando o trâmite democrático do projeto de Cid Sabóia, ocorrido na Câmara e no Senado, formulou, com a assessoria de membros do Ministério da Educação, outro projeto”, relata. “Todo este processo foi vivido intensamente por Florestan, acusado, injustamente por Darcy de abandonar os trabalhadores, que estudavam à noite em péssimas escolas, à própria sorte. Este embate entre os dois constitui, na minha avaliação, a expressão do embate histórico entre projetos antagônicos de educação e de sociabilidade: o projeto em torno da luta pela educação pública e gratuita, por um lado, e a `liberdade de ensino`, por outro, defendida pelo setor privado leigo e confessional.”

O descanso do lutador

Já no fim do segundo mandato, a saúde de Florestan estava debilitada e o fato de ter conhecido o Legislativo “por dentro” o desanimou de tentar mais uma eleição. “Ele estava desiludido com a luta política e conheceu uma face do poder que até então não conhecia. Pediram para ele se candidatar novamente e ele veio falar comigo, dizendo que nunca havia tirado férias, que precisava descansar, mas tinha medo de ser taxado de `traidor`. Ele não acreditava mais nas possibilidades do Congresso Nacional, mas mesmo assim sua postura ética era tão forte que ele ainda hesitava”, relembra Heloísa Fernandes.

Assim, seguiu lutando contra os efeitos da hepatite e continuou participando do debate público por meio de artigos publicados na Folha de S. Paulo. No dia 10 de agosto, após menos de uma semana de um transplante de fígado fracassado, Florestan faleceu, deixando, além da vasta obra que o situa como um dos maiores sociólogos e pensadores políticos da história do Brasil, também um exemplo de militância, de alguém que sempre privilegiou a perspectiva dos excluídos em um meio acadêmico que muitas vezes dá as costas a eles. E hoje, sua ausência ainda é sentida no âmbito das discussões públicas. “Ele era sempre o `chato`, quando todo mundo estava muito satisfeito, chegava e ponderava que não era por aí. No debate político essa figura é muito importante, sem alguém assim, descambamos para a direita ou para o conformismo de uma maneira mais fácil”, analisa Lidiane Rodrigues.

A filha Heloisa conta como a morte do pai a fez se afastar da universidade e de que forma a força de sua presença a fez retornar. “Quando meu pai estava doente, queria ficar mais próxima dele, mas tinha muitas atividades acadêmicas. O fato de não poder conviver com ele nessa fase me deixou com um ódio profundo da universidade. Quando me aposentei fiquei totalmente afastada, fazia tecelagem, cheguei a importar livros... Não queria falar do meu pai, ficava péssima e não participava de homenagens, solenidades, eventos”, relembra.

“Na inauguração da Escola Nacional Florestan Fernandes, meu irmão estava viajando e ele pediu para eu ir. Minha mãe ficou uma hora no telefone tentando me convencer e neguei. Depois pensei que ela ia acabar indo, então voltei atrás. Estava irritada, ainda mais porque o evento ia ser no dia do meu aniversário. Naquela noite, sonhei que acordava com um barulho forte fora de casa. Levantava, olhava pela fresta da janela e via vários trabalhadores em um caminhão, com meu pai entre eles. Então ele descia e falava para mim: `Levanta, hoje é dia de festa`”, conta, emocionada. “Aquele dia foi o fim do meu luto.”

No Twitter: @glaucofr

Fonte: Revista Fórum

Do Blog do Mercadante - 31.08.2010

18 de ago. de 2010

Uma homenagem a todos os professores


Imagem da manifestação dos professores em São Paulo, agredidos pela Polícia de José Serra.

Recebi por e-mail e posto para homanegear os sofridos professores paulistas, tão desrespeitados por governantes truculentos como José Serra e seus secretários de educação.
Somos todos seres pensantes, muito embora burocrátas e pseudo intelectuais como o atual secretário de educação de São Paulo não percam a oportunidade de nos responsabilizar pelo fracasso da educação pública paulista.
Somo seres pensantes e sensíveis ao descaso e desrespeito a que são submetidos os alunos paulistas há 16 anos, pelo PSDB.
Quantas gerações foram perdidas nestes 16 anos, quantos talentos foram desperdiçados por não terem uma educação de qualidade e seriedade nos investimentos da educação?
É um apelo sofrido de educadores que, mesmo levando a fama de incompetentes, de despreparados são os únicos e verdadeiros responsáveis por a educação de São Paulo sobreviver, mesmo que esteja agonizante.
Deixo também um apelo sincero ao todos os professores, alunos, pais e sociedade em geral.
Lutemos para que nosso estado de São Paulo se liberte do estado catártico em que se encontra e expulse da política paulista os únicos e verdadeiros responsáveis pelo sucateamento da educação pública.
Não nos deixemos enganar, mais uma vez, pela fala macia e promessas vazias do candidato que já esteve no poder em São Paulo por 10 anos e tratou a educaçao pública com o mesmo descaso que seu antecessor e seu sucessor.
Vamos dar um basta ao PSDB em São Paulo.


SOU UM PROFESSOR QUE PENSA... enviado por e-mail pela professora Ana Maria Kuper.

Pensa em sair correndo toda vez que é convocado para uma reunião, que
certamente o responsabilizará mais uma vez, pelo insucesso do aluno.

SOU UM PROFESSOR QUE LUTA...

Luta dentro da sala de aula, com os alunos, para que eles não matem uns aos outros.
Que luta contra seus próprios princípios de educação, ética e moral.

SOU UM PROFESSOR QUE COMPREENDE...

Compreende que não vale a pena lutar contra as regras do sistema, ele é sempre o lado mais forte.

SOU UM PROFESSOR QUE CRITICA...

Critica a si mesmo por estar fazendo o papel de vários outros profissionais como: psicólogo, médico, assistente social, mas não consegue fazer o próprio papel que é o de ensinar.

SOU UM PROFESSOR que tem esperança,
E espera que a qualquer momento chegue um "estranho" que nunca entrou em uma sala de aula, impondo o modo de ensinar e avaliar.

SOU UM PROFESSOR QUE SONHA...
SONHA COM UM ALUNO INTERESSADO,
SONHA COM PAIS RESPONSÁVEIS,
SONHA COM UM SALÁRIO MELHOR, UM MUNDO MELHOR.

ENFIM, SOU UM PROFESSOR QUE REPRESENTA...

Representa a classe mais desprestigiada e discriminada, e que é incentivada a trabalhar só pelo amor à profissão.

Representa um palhaço para os alunos.

Representa o fantoche nas mãos do sistema concordando com as falsas
metodologias de ensino.

E esse professor, que não sou eu mesmo, mas é uma outra pessoa, representa tão bem, que só não trabalha como ator, porque já é PROFESSOR e não dá para conciliar as duas coisas. 
Brazil Mobilizado - 17.08.2010 

Veja abaixo:


Trecho da fala de Mário Sérgio Cortella e o discurso do Mercadante no ENCONTRO DE EDUCADORES DO PT realizado no dia 07/08/2010 no Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.
 Trecho de fala de Mário Sérgio Cortella

Discurso do Mercadante
Vídeo 1


Vídeo 2

Vídeo 3


Vídeo 4

Vídeo 5

 

12 de jun. de 2010

Estudantes reforçam invasão da reitoria da USP


Decisão aconteceu em assembleia tumultuada, da qual o DCE se retirou

Alguns alunos da USP já se somam a empregados desde início da invasão; cerca de 30 pessoas dormem no prédio
TALITA BEDINELLI - DE SÃO PAULO

LIVIA SCATENA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA 11-06-2010
Em uma assembleia tumultuada, com bate-boca e xingamentos e sem a presença do DCE (Diretório Central dos Estudantes), alunos da USP decidiram aderir à invasão da reitoria, onde os servidores já estão acampados desde a última terça-feira.
Desde o início, alguns alunos passaram a dormir no prédio. Mas o movimento estudantil não havia decidido se participaria da ação.
A assembleia dos estudantes estava marcada para as 18h. Como havia só 50 alunos, o DCE disse que não havia quórum. Parte discordou.
O diretório acadêmico se retirou. E a assembleia prosseguiu. Às 21h30, quando ela acabou, havia apenas 180 dos 57 mil graduandos.
No final, os alunos decidiram adiar a decisão da entrada na greve para a próxima reunião, na quarta, quando esperam mais pessoas.
O ato de invasão da reitoria reitera o apoio de parte dos estudantes aos funcionários, que estão em greve desde 5 de maio. Os servidores entraram no prédio em protesto ao corte do pagamento de cerca de mil grevistas.
Desde terça, eles estão passando a noite em colchões e em sofás espalhados pelo prédio. Os manifestantes vetam a entrada da imprensa no local. Mas ontem, a Folha esteve lá.
O lugar estava bem organizado e limpo. Um cartaz pedia para que se colaborasse com a limpeza e um balde estava reservado para os fumantes jogarem bitucas. Não havia sinais de objetos danificados, além de uma porta de vidro quebrada e uma parede destruída a marretadas.
O Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) enviou ontem à tarde ofício ao reitor pedindo a reabertura da negociação salarial. A USP respondeu dizendo que as questões estão contempladas no acordo já proposto na última reunião.

Do blog Sindsep Forte - 11.06.2010

2 de mai. de 2010

OS planos hediondos do governo paulista para as Universidades: UNIVESP!



Segue cartilha do grupo da Unicamp que pesquisou o programa, é muito triste o que o PSDB tem feito com a educação nesse Estado.
Educador que não se cala


COLETIVO UNIVESP - UNICAMP
O COLETIVO UNIVESP é composto por
estudantes de diversos cursos de graduação e de pósgraduação
da UNICAMP, que se reúnem,
periodicamente, para discutir os problemas da
expansão do ensino superior público por meio de
cursos à distância, cuja principal expressão (em São
Paulo) é a Universidade Virtual do Estado de São Paulo
(UNIVESP).
Quais as conseqüências desta modalidade de
ensino? Representa, de fato, a expansão do ensino
público, gratuito e de qualidade, como anunciado?
Levantamos estas e outras questões.

1. O que é a UNIVESP?
É o Programa Universidade Virtual do Estado de São
Paulo, criado pelo governo Serra, em outubro de 2008,
por meio do Decreto Nº 53.536.
Sua criação vem sendo justificada pela necessidade
de democratização do ensino superior, aumentando-se o
número das vagas oferecidas e o atendimento de parcelas
da sociedade até então excluídas do acesso a cursos de
graduação, pós-graduação e de formação continuada.
Outra alegação é a da necessidade de ampliar o
contingente de professores certificados e de gestores
educacionais formados.
O programa prevê parcerias entre as universidades
estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp), instituições
públicas (FAPESP, Secretaria de Educação e Prefeituras) e
de direito privado, como a Fundação Padre Anchieta (TV
Cultura). Por meio destas parceiras, propõe-se oferecer
acesso gratuito ao ensino superior na modalidade ensino
à distância.

Os cursos durariam até três anos e ocorreriam da
seguinte forma: 30 minutos semanais de programas-aula
transmitidos pela TV Cultura e posterior trabalho do
conteúdo específico de determinada disciplina. Esta
última etapa estaria sob os cuidados dos tutores, que são
os profissionais que acompanharão os alunos, de forma
presencial ou à distância (via Internet, telefone e correio).
As avaliações finais ocorreriam nos pólos de atendimento
e acompanhamento dos alunos, que são os mesmos onde
ocorrerão as poucas aulas presenciais.

2. Por que discutir a UNIVESP?
Para mostrar que a Univesp esconde a intenção do
estado de diminuir os investimentos nas universidades
estaduais paulistas. A proposta da “Universidade Virtual”
amplia a lógica da reforma educacional dos últimos anos,
em vários sentidos: precarização do trabalho docente,
perda do controle dos tutores sobre o processo de ensino,
não investimentos em infra-estrutura e condições
objetivas para a realização do processo educativo,
inviabilização de todo o rico processo de vivência
estudantil etc. Impõe também a equivocada substituição
do ensino presencial pelo ensino à distância, que deixa de
ser um recurso útil que pode ser aplicado ao ensino, para
se tornar uma modalidade.
Outras razões para discutir a Univesp colocam-se na
forma de questões: o que é uma relação aluno-professor
quando ela ocorre através de uma tela de televisão (ou do
computador)? Existe realmente uma relação recíproca?
Por que pensar no professor como principal alvo para a
formação à distância? Quais são as condições de
trabalhos desses professores/tutores? A Univesp é uma
universidade de verdade?

3. Quais são os primeiros cursos da
Univesp?
São o curso de Pedagogia,
sob convênio com a UNESP,
e o curso de línguas (inglês e espanhol), ministrado para
alunos das ETECs e FATECs. Trata-se de cursos com
características diferentes. O primeiro refere-se a uma
formação de nível superior, enquanto o segundo é como se
fosse uma disciplina que complementa a grade curricular.
O curso de Pedagogia está sendo iniciado neste ano
de 2010 e terá 3 anos de duração (carga horária total de
3.390 horas), tendo 40% das atividades no modo presencial,
a serem realizadas em pólos distribuídos por 21 cidades do
estado de São Paulo. A parte presencial do curso inclui o uso
do computador e da televisão nos pólos. Este curso foi criado
sob a justificativa de que havia falta de professores com
diplomas de curso superior nas escolas públicas, devendo
atender especificamente a este público. Entretanto, já foram
aceitas matrículas de professores também das escolas
privadas, o que coloca em questionamento a primeira
justificativa.

4. É adequado formar os professores à
distância?
Por que o curso de pedagogia foi escolhido para ser o
primeiro para a formação à distância? Por que eleger os
educadores do presente e do futuro, como alvos desta
primeira experiência da Univesp? Pensou-se em formar
médicos ou dentistas nessa modalidade?
Tornou-se comum atribuir aos professores em exercício
a “culpa” pelos problemas da baixa qualidade do ensino no
estado de São Paulo. Apesar disso, o governo propõe uma
“transformação do quadro de qualificação dos professores”
adotando uma política de formação de professores à
distância. Isso não é estranho?
O ensino à distância está baseado numa metodologia
que separa teoria e prática, que promove a individualização e
a solidão na aquisição de conhecimentos e evita os conflitos
típicos do ensino presencial, que são essenciais ao processo
de ensino/aprendizagem.
Parece uma saída lógica, porque rápida e mais barata
do que o “tradicional”, mas é pouco inteligente se o objetivo
for mesmo melhorar a qualidade do ensino. Imaginar que
professores formados longe do espaço escolar e de forma
mais “econômica” vai melhorar a qualidade da escola pública
é uma ilusão.
A pergunta inicial, então, retorna: seria conveniente
ser operado por um médico cirurgião formado à distância,
que aprendeu as técnicas cirúrgicas por meio de vídeos
explicativos e internet?

5. Por que expandir o ensino superior por
meio do ensino à distância (EàD)?
Durante décadas, só uma pequena parcela da
população teve acesso à educação superior no Brasil, o
que conferia às instituições de ensino um perfil elitista. A
reforma universitária de 1968, da Ditadura Militar, fez
com que a política educacional se voltasse para a questão
do acesso, na medida em que a própria população sentia
sua necessidade e reivindicava tal expansão. Desde então,
contudo, nunca houve um projeto de expansão do ensino
preocupado com as necessidades reais da população
brasileira.
A estratégia dos governos brasileiros tem sido a de
permitir que a educação superior se expanda
prioritariamente no setor privado. Como em qualquer
negócio, a educação privada procura sempre ampliar os
lucros, o que implica: reduzir seus custos, precarizar o
trabalho dos professores, retirar direitos trabalhistas, não
investir em pesquisas e extensão, reduzir a infraestrutura
e ampliar ao máximo o número de alunos. A
implantação do ensino à distância representa uma
eficiente saída para tais fins: é barata, rápida e permite
“substituir” grande parte do trabalho docente por
computadores, softwares, conteúdos da internet etc.

6. A Univesp ajuda a solucionar o
problema do acesso ao ensino superior
público?
O histórico problema do acesso ao nível superior no
Brasil não será minimizado, muito menos resolvido, com
a Univesp. Isso se deve ao fato de que é um programa que
não altera as causas estruturais do problema do acesso
ao nível superior público no país.
A Univesp:
a) aprofunda a desigualdade existente nas próprias
instituições de ensino, que separa cursos considerados
“de elite” de outros menos prestigiados;
b) não amplia o acesso, em geral, da população às
universidades públicas. Apenas cria uma falsa
alternativa, a do ensino à distância, para ampliar as
estatísticas da educação superior paulista;
c) não ajuda a conter a expansão desenfreada e
irresponsável das empresas educacionais, que oferecem
cursos precários e de má qualidade;
d) por fim, também não melhora o perfil de formação dos
alunos. As condições precárias de funcionamento, o
financiamento limitado, a ausência de projetos de longo
prazo e de infra-estrutura adequada, a desvinculação entre
atividades de ensino, pesquisa e extensão, fazem da Univesp
um projeto absolutamente ineficaz no combate aos
problemas do ensino superior paulista.

7. Como são as condições de trabalho dos
profissionais da Univesp?
Há dois tipos principais de profissionais envolvidos na
realização do programa: o professor e o tutor, também
chamado de “orientador de disciplina”.
Como se trata de um curso na modalidade educação
à distância, quem detém maiores responsabilidades neste
processo é o tutor. De acordo com a implantação atual do
programa, este deverá assumir vários papéis no processo de
formação dos alunos: “mediar aulas presenciais e de
videoconferência, supervisionar, aplicar e corrigir as
avaliações pedagógicas e acompanhar as atividades dos
alunos nos dois encontros presenciais semanais do Curso de
Pedagogia semipresencial e nos ambientes de aprendizagem
nos Campi da Unesp, dar suporte às atividades didáticas
virtuais, participar das atividades de capacitação.
Já o professor deverá propor e elaborar o curso e
seu material didático, bem como assumir as aulas
presenciais.
Vários problemas decorrem dessa disposição: 1) em
ambos os casos, corre-se o risco de ampliar e intensificar
a jornada de trabalho. Em especial para os tutores, cuja
carga horária pode facilmente ultrapassar a estipulada, já
que seu trabalho ocorre também em casa, no ambiente
virtual; 2) os tutores, contratados por tempo determinado
(regime CLT) não têm as mesmas garantias trabalhistas
dos professores concursados das universidades públicas
paulistas; 3) mesmo tendo contato direto com o aluno, o
tutor/“orientador de disciplina” não terá autonomia sobre
conteúdos, métodos e avaliações de seus alunos, ou seja,
será apenas um “aplicador” de tarefas.
Além de tudo isso, haverá ainda uma sobrecarga
dos funcionários técnicos e administrativos da
universidade conveniada, já que bibliotecas, bandejão,
secretarias, pólos de informática etc. atenderão a um
público bem maior, sem previsão de novos investimentos.
Cabe então uma pergunta: com qual tipo de
profissional e em que condições é mais adequado um
estudante ser formado?

8. Quais são os problemas que a Univesp não
resolve, nem se propõe a resolver?
Como foi visto, a Univesp não resolve, nem se
propõe a resolver, ao menos quatro dos principais
problemas do ensino superior paulista: 1) a questão do
acesso e do perfil elitista de muitos cursos universitários,
já que prioriza certas áreas consideradas menos “nobres”;
2) a da qualidade do ensino, que está diretamente ligada
às condições de ensino oferecidas bem como às condições
de trabalho dos profissionais da educação;
) a da tendência de privatização do ensino superior, pois a
Univesp não melhora a estrutura de financiamento público à
educação, e também favorece a penetração do dinheiro e
interesses privados no ensino público e; 4) a Univesp não
contribui para melhorar a qualidade da educação básica. De
um lado, pois pretende formar professores sem lhes oferecer
condições adequadas de formação e, de outro lado, pois
desconsidera duas dimensões fundamentais desta formação:
a pesquisa e a extensão.

9. Há outros interesses por trás da Univesp?
Por ser a Educação um dos carros-chefe das
campanhas eleitorais hoje no Brasil, o programa Univesp se
apresenta como instrumento, rápido e barato, de melhoria
das estatísticas da formação de professores em São Paulo.
Também serve para minimizar os efeitos negativos causados
pelo péssimo desempenho do estado nas avaliações
educacionais recentes.

Dessa forma, o governo paulista propõe o ensino à
distância para evitar a criação de novos cursos
presenciais, que exigiria investimentos e prioridade
política, em favor de resultados imediatos e eleitoreiros.
Também cria um novo tipo de ensino no qual se despreza
a vivência acadêmica, restringem-se o tempo e o espaço
de formação, bem como o desejável e necessário contato
com o professor, que se vê substituído pelo uso da
televisão e da internet.

Saiba mais! Participe!
As questões expostas acima estão sempre presentes
em nossas reuniões. Para saber mais do COLETIVO
UNIVESP acesse http://coletivounivesp.blogspot.com/
e confira textos, reportagens, agenda das reuniões e
outras informações.
Blog Não te calas. Educador - 30.04.2010

2 de jul. de 2009

Educadores - V Congresso Paulista de Educação Infantil (para Setembro de 2009)

Da Faculdade de Educação da USP - O Fórum Paulista de Educação Infantil - (FPEI) MEC - comemora 10 anos.
Continue lendo.

Inscrições e submissões de trabalho foram prorrogadas até 1º de julho - contato somente on-line - clique aqui

informações por e-mail: apoioacad@fe.usp.br / vcopedi@fe.usp.br

Dez anos! Intensa efervescência dos Movimentos Sociais - Fóruns, MIEIB, Campanha da Sociedade Civil, do Poder Público e da Universidade. Embates e debates sobre educação, criança, criança pequena, cultura, linguagens, etnia, gênero, financiamento, formação de professores, espaço físico, o que trabalhar com as crianças, “confusão” entre o público e o privado. Acesso e facilidade na comunicação: Internet; sistemas tecnológicos; informatização. Quase uma década de novo milênio e o desencadeamento de propostas como cidades educadoras, reconhecimento das crianças como atores sociais, articulação entre provisão, proteção e participação, construção de novos paradigmas. O que tem significado a EI fazer parte da educação básica? O que se entende por qualidade? E por avaliação da qualidade? Pesquisa, avanços e retrocessos na área. As relações instáveis entre as concepções presentes na legislação e as práticas sociais envolvendo a infância.
Promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei 9394/96, que dispõe sobre os direitos das crianças à educação, das Diretrizes Curriculares Nacionais para EI, do Plano Nacional de Educação, mudanças na LDB, revisão das Diretrizes, produção acadêmica, produção regional via secretarias de educação.
O Fórum Paulista de Educação Infantil - FPEI também comemora uma década na defesa dos direitos das crianças: seu acesso e usufruto a educação com qualidade. Durante esse período, o FPEI tem promovido encontros, debates e o COPEDI, que em sua quinta edição, pretende promover o debate público sobre as trajetórias das políticas públicas em vigor, a construção da profissionalidade docente, e as praticas educativas resultantes.

EIXO 1 - Políticas públicas para a Infância
Ementa A Educação Infantil, como primeira etapa da educação básica - em processo de integração das instituições de educação e cuidado das crianças pequenas – conclama esforços coletivos de profissionais da área que, comprometidos com a infância, buscam garantir os direitos fundamentais, próprios e inalienáveis da criança. Questões como: • Políticas de antecipação do ingresso da criança na escola; • Ausência de continuidade do processo educacional na educação de crianças de zero a dez anos; • Políticas de conveniamento ou a desresponsabilização do Estado com a educação das crianças de zero a três anos; • Acompanhamento, supervisão e regulação da qualidade da educação evidenciam as múltiplas dimensões do campo e as dificuldades em concretizar os avanços legais e para enfrentar as suas conseqüências polêmicas no que se refere a financiamento, regulamentação, atendimento à demanda, formação profissional, condições de trabalho, ambientes das instituições, participação das famílias, políticas de educação formal e não-formal. Nesta perspectiva, este eixo refere-se especialmente às experiências das gestões municipais, dos movimentos da sociedade civil (conselhos municipais e estaduais, fóruns, sindicatos, associações, ONGs) e das Universidades em torno dessas questões, assim como da articulação com os setores da assistência, saúde, cultura, urbanismo, entre outros, para que as políticas públicas voltadas para a infância possam, efetivamente, “pensar primeiro na criança”.

EIXO 2 - Bases Epistemológicas para pensar os tempos, espaços, relações e atividades da Infância
Ementa O grande desafio das Pedagogias da Infância é a interlocução entre as Ciências da Educação e as Artes, compreendendo os tempos, espaços, relações e atividades da infância no plano das fortes modificações sociais presentes na contemporaneidade. Os conhecimentos acumulados nos campos da Filosofia, Pedagogia, Psicologia, Antropologia, História, Sociologia, Arquitetura e Artes permitem construir novos paradigmas para a educação infantil. Neste eixo serão privilegiadas as produções que revelam e desvelam questões relativas às diferentes formas de vivência das infâncias nos ambientes educacionais coletivos (creches e pré-escolas), contemplando e contextualizando contribuições de precursores da educação infantil e pesquisadoras/es e teóricas/os contemporâneos.

EIXO 3 - Identidades, Formações e Desenvolvimento das/os profissionais de Educação Infantil
Ementa A identidade profissional dos adultos envolvidos com a educação infantil é construída na extensão de suas experiências ao longo da vida e pelas concepções e representações sobre a infância, a educação e as práticas institucionais. É revelada na pluralidade das identidades (de gênero, classe social, étnico-raciais etc) e se articula às propostas curriculares de formação inicial e continuada e com os processos de desenvolvimento profissional, tendo uma nova perspectiva de educação infantil que traduza vivências acumuladas e pesquisas realizadas que não antagonizem a cultura lúdica e as culturas da escrita.

EIXO 4 - Práticas Pedagógicas, Culturas Infantis e Produção Cultural para crianças
Ementa Este eixo pretende apresentar, problematizar e debater teorias e práticas pedagógicas que enfoquem a construção de Pedagogias da Infância e que contemplem as crianças e as professoras/es como protagonistas de uma relação educativa que envolve também as famílias, articulando-as à produção das diferentes linguagens e culturas tecidas pelas crianças. Pretende-se também destacar a variedade da produção cultural dirigida à Infância, revelando os contrastes presentes nas propostas pedagógicas, nas mídias e demais ações voltadas para as crianças.

3ª-f - 08/09/09
14h30 - 16h
- Credenciamento
Auditório da FEUSP

Processo Eleitoral: Inscrições de Chapas para Grupo Gestor
Associação Amigos do Fórum Paulista de Educação Infantil (AAFPEI)
Auditório da FEUSP


19h30 - Abertura solene
Paço das Artes

20h - Conferência de Abertura:
Educação Infantil: balanço de uma década de luta
Tizuko Morchida Kishimoto (FEUSP)
Paço das Artes

4ª-f - 09/09/09

9h – 10h30 - Conferência Eixo 2

Tempos, espaços, relações e atividades da Infância
Sandra Richter (Universidade de Santa Cruz/RS)
Paço das Artes

10h30 – 11h – Intervalo para Café

11h – 12h30 – Simpósios

1. Demanda em Educação Infantil
Representante do Instituto Lidas SP
Representante da SME SP
(a confirmar)
Auditório EA

2. Creches na universidade
Maria Clotilde Magaldi - COSEAS
Elisabeth Gelli Yazle - Creches da UNESP
Paço das Artes

Mesas Redondas

1. Memória: Uma década de Políticas Públicas para a Infância
Vital Didonet (OMEP Brasil)
Lisete Arelaro (FEUSP)
Mediadora: Belmira Bueno (FEUSP)
Auditório FE

4. Memória: construção cultural para crianças e culturas produzidas por crianças
Sílvia Helena Vieira Cruz (UFCE)
Maria Angela Francoio (MAC)
Mediadora: Dislane Z. Moraes (FEUSP)
Auditório IO

6. A criança e a cidade
Fernanda Muller (UNIFESP)
Márcia Gobbi (FEUSP)
Mediadora: Célia Serrão (Universidade Mackenzie)
Auditório EEF

7. Relações étnico-raciais: construção de identidades
Lucimar Rosa Dias (UFMS)
Waldete Tristão (SME-SP)
Ellen de Lima Souza (SME- São Carlos)
Mediadora: Sonia Larrubia (SME-SP)
Auditório CP

12h30 – 14h30 - Intervalo para Almoço

14h30-16h - Conferência Eixo 3
Identidades, Formações e Desenvolvimento das/os profissionais de Educação Infantil
Mônica Pinazza (FEUSP)
Paço das Artes

16h – 16h30 – Intervalo para Café

16h30 – 18h - Comunicações/Painéis/Vídeos

18h – 19h30 – Intervalo para Jantar

20h - Atividade cultural externa (passeio monitorado pela cidade, teatro...)

5ª-f - 10/09/09

9h – 10h30 - Conferência Eixo 1

Políticas públicas para a Infância
Maria Malta Campos FCC/PUC SP
Paço das Artes

10h30 – 11h - Intervalo para Café

11h – 12h30 - Simpósios

3. Propostas curriculares para a Educação Infância
Maria Carmem Barbosa (UFRGS)
Ligia Aquino (UERJ)
Auditório EA

4. Territórios da infância – educação infantil e ensino fundamental
Suely Mello (UNESP/Marilia)
Catarina Moro (UFPR)
Paço das Artes

Mesas Redondas

2. Memória: uma década de debate epistemológico sobre a educação da infância
Solange Jobim e Souza (PUCRJ)
Miriam Celeste Martins (UNESP/Mackenzie)
Mediadora: Maria Aparecida Mello (UFSCar)
Auditório EEF

3. Memória: uma década de luta pela profissionalização
Helena de Freitas (UNICAMP)
Marita Martins Redin (UNISINOS/RS)
Mediadora: Denice Catani (FEUSP)
Auditório CP

5. Crianças são sujeitos de direitos. Que sujeitos? Que direitos?
Paulo Arantes (Ministério Público)
Marcos Cezar de Freitas (UNIFESP)
Mediadora: Maria Letícia B. P. Nascimento (FEUSP / FPEI)
Auditório FE

8. Em foco: os bebês
Patricia Dias Prado (FEUSP)
Hildair Garcia Câmera (UFRGS)
Mediadora: Marilena Rosalem (UNIMEP)
Auditório IO

12h30 – 14h30 - Intervalo para Almoço

14h30-16h - Comunicações/ Painéis/Vídeos
FEUSP

16h – 16h30 - Intervalo para Café

16h30 – 18h - Apresentação de grupos de pesquisa
FEUSP

18h – 19h30 - Reunião Aberta MIEIB
Auditório FE

20h - Jantar por adesão

6ª-f - 11/09/09

9h – 10h30 - Conferência Eixo 4

Práticas Pedagógicas, Culturas Infantis e Produção Cultural para crianças
Roselene Crepaldi (MinC)
Paço das Artes

10h30 – 11h - Intervalo para Café

11h – 12h30 - Simpósios

5. Movimentos Sociais pela criança de 0 a 6 anos
Representante do MIEIB
Representante do Movimento Nossa São Paulo (a confirmar)
Auditório EA

6. Socialização e Mídia
Maria da Graça Setton (FEUSP)
Carmelita Maria da Silva Campos (SMC São Carlos)
Paço das Artes

Mesas Redondas

9. A Educação Infantil: implicações legais e pedagógicas
Rita Coelho (MEC/COEDI)
Arthur Fonseca Filho (CEE/SP)
Mediadora: Maristela Angotti (UNESP/ Araraquara)
Auditório FE

10. Caminhos da pesquisa na Educação Infantil
Ana Lucia Goulart de Faria (UNICAMP)
Luciano Mendes de Faria Filho (UFMG)
Mediadora: Elisabeth Yazzli (UNESP/Assis)
Auditório EEF

11. Mobilização e organização dos profissionais da Educação Infantil
Muriane de Assis (SME - Araraquara)
Joseane Búfalo (SME -Campinas)
Mediadora: Marineide de Oliveira Gomes (UNIFESP)
Auditório CP

12. Imagem e Movimento: provocações de diálogos com as infâncias
Adriana Silva (UNICAMP)
Daniel Revah (UNIFESP)
Mediador: Amaury Cezar Moraes (FEUSP)
Auditório IO

12h30 – 14h30 - Intervalo para Almoço

14h30-16h - Assembléia de Encerramento

Divulgação de Resultados do Processo Eleitoral do FPEI
Paço das Artes

Fonte: FEUSP e MEC

1 de jul. de 2009

Comparato: A autonomia universitária é uma farsa

Um dos intelectuais mais respeitados do país, Fábio Conder Camparato critica a presença da Polícia Militar no campus da USP e afirma que os serviços públicos no Brasil são entendidos como um 'ralo por onde somem os recursos'. Para ele, a autonomia universitária é uma farsa e as instituições de ensino no país não agem de maneira republicana.

O jurista sofreu uma decepção na última quinta-feira (18). Ao chegar para a avaliação de uma tese de Mestrado, o professor deparou-se com as portas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco cerradas.

Por decisão do diretor João Grandino Rodas, o histórico prédio ficou fechado ao longo do dia por temor do que poderia ocorrer durante a passeata de estudantes, funcionários e professores de USP, Unesp e Unicamp.

Depois de subir ao caminhão de som dos manifestantes e afirmar que a reitora da USP, Suely Vilela, não tem mais confiança dos "dirigidos" para permanecer no cargo, o professor conversou com a reportagem da Rede Brasil Atual sobre a situação da Universidade – jornalistas de outros veículos acompanharam a conversa.

Para o jurista, a reitora, que deveria ser representante da comunidade universitária, comporta-se como secretária do governador José Serra, que utilizou a Polícia Militar como capangas do estado de São Paulo ao reprimir manifestação semana passada na Cidade Universitária.

Sobre a administração estadual, Fábio Konder Comparato aponta abuso no uso de publicidade como forma de promover eleitoralmente José Serra e destaca que tal propaganda vai contra a Constituição.

Há dois anos, o jurista foi vítima da aposentadoria compulsória, adotada para professores das universidades estaduais paulistas que atingem os 70 anos. Para ele, trata-se da "expulsória".

Ainda assim, o professor mantém estreita relação com a academia e desenvolve atividades nas áreas de Direito Comercial e dos Direitos Humanos, nas quais esteve focado ao longo dos últimos anos.

Como o senhor viu o fechamento do prédio da Faculdade de Direito do Largo São Francisco?

Eu acho que nunca aconteceu na Faculdade de Direito. É um ato insólito porque, se os diretores de faculdade e a reitora se queixam da greve, eles deveriam também se manifestar contra o lockout. Isso é exatamente o oposto da greve, é o lockout, que é quando uma empresa fecha as portas e não deixa entrar os operários. É o que aconteceu aqui e eu fiquei muito envergonhado como professor. Eu fiquei literalmente surpreso com essa decisão, que não tem a meu ver nenhum apoio nos princípios republicanos que devem reger a Universidade.

Como o senhor acompanhou os fatos da semana passada?

O que é grave é que a Polícia Militar, que é composta por oficiais e soldados dignos, dedicados, começa a ser utilizada como um grupo de capangas do governador do estado e da reitora da Universidade. Isso é humilhante não só para a Universidade, mas também para os oficiais e soldados. Eles têm que exercer o papel mantendo a segurança e a ordem pública.

São Paulo é uma cidade absolutamente desordeira e submetida ao banditismo mais desbragado. Não sei se as pessoas se dão conta, mas de um ano para cá o número de furtos de veículos crescem em 300%. Oras, é evidente que, para reprimir isso, é preciso saber utilizar a Polícia Militar, e não simplesmente concentra-la no campus da USP para atacar estudantes, professores e funcionários. É uma inversão de objetivos.
O serviço da polícia não pode ser utilizado desta forma. Isso é um abuso de poder por parte do governo do estado.

O senhor entende que os fatos feriram o conceito da Universidade como instituição autônoma?

Sem dúvida. Aliás, a autonomia da Universidade é uma farsa, a começar pelo aspecto financeiro. O artigo 207 da Constituição declara as universidades autônomas sob o aspecto didático-científico, financeiro e administrativo, e o que se verifica é que sob o aspecto financeiro a Universidade é tratada como se fosse uma simples fonte de gastos. Ou seja, para nós, tradicionalmente no Brasil, o serviço público é uma espécie de ralo por onde somem os recursos públicos. A função do serviço público é servir o povo, não é servir a economia e dar dinheiro.

Para nós, tradicionalmente no Brasil, o serviço público é uma espécie de ralo por onde somem os recursos públicos. A função do serviço público é servir o povo, não é servir a economia e dar dinheiro

A economia nós faremos restringindo a propaganda governamental. O governador do estado faz propaganda da sua gestão, indo contra a Constituição, e ele resolve fazer economia em serviços públicos. Isso é um escárnio. É preciso que se diga claramente que o Ministério Público Estadual é culpado por não atacar essa propaganda governamental que é feita com dinheiro do povo simplesmente para beneficiar o governador de plantão.

O artigo 37 parágrafo 1º da Constituição proíbe a publicidade oficial em tom de propaganda ou para projetar a figura oficial de políticos, e é o que se faz de alto a baixo em todos os estados da federação.

O senhor falou que a reitora perdeu a confiança da comunidade. Uma vez posto isso, qual o caminho a ser seguido?

Infelizmente, o Estatuto da USP não abre um caminho. É por isso que tem que ser mudado. A reitora da Universidade não é eleita pelo Conselho, ela é nomeada pelo governador. Claro, a partir de uma lista tríplice, mas essa lista é formulada por uma maioria esmagadora de professores. Os estudantes e funcionários são subrepresentados no Conselho Universitário.

E, além disso, no momento em que ela perdeu a confiança de todos, ela não pode ser destituída. Nem o governador pode a rigor destituí-la, porque ela é nomeada por tempo certo.

Isso não é democracia. Até agora, funcionou porque a exigência democrática na sociedade brasileira era muito fraca. Mas a nova geração não se conforma com isso. A minha geração ainda achava que a elite é que deveria governar e que o povo é ignorante e incompetente. Hoje, graças a Deus, essas noções vão desaparecendo.

O povo sabe que não é idiota e sabe que é explorado, que não tem condições de manifestar sua soberania. Qual o fundamento da democracia? Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes ou diretamente. Os reitores de universidades não são representantes do povo universitário, e isso é de uma verdade mais do que evidente.

Então, nós temos que continuar pregando a República e a democracia na Universidade mesmo quando não há chance para que nossa pregação seja ouvida. Aos poucos, nossas reivindicações vão penetrando nas consciências, e quando a maioria se convencer que nós vivemos um regime político imoral, explorador e desordeiro, esse regime estará com os dias contados. Infelizmente, não será para o meu tempo.

Os fatos da semana passada podem marcar um momento de inflexão dentro da luta por democracia na Universidade?

Eu espero que sim, mas é preciso não perder de vista o seguinte: toda vez que a imoralidade e a violência irracional crescem na sociedade, a direita se torna mais forte. A direita espera sempre que haja alguém forte e decidido para tomar conta do Estado. E é o que está acontecendo. Há um grupo forte de estudantes que não acredita mais em democracia e nunca acreditou em República e está esperando algo como um fascismo tupiniquim.

Eu não tenho raiva deles, pelo contrário, considero como meus filhos e, de certa maneira, eu sei que eles estão errados. Nós erramos ao deixar de lutar eficazmente pela democratização da Universidade, nós erramos ao sermos condescendentes com a corrupção, e agora estamos pagando o preço disso.

Por outro lado, a verdadeira esquerda não é anárquica ou destruidora. A verdadeira esquerda é aquela que se liga indissoluvelmente aos pobres, aos humilhados e aos oprimidos.

E é por isso que quando surge uma figura como o Lula, que está longe de ser perfeito, mas que tem sensibilidade pelo pobre e que fala a linguagem do pobre, ele é não só acolhido como ele é venerado. E isso irrita profundamente a direita e a esquerda.

Neste momento de greve, sempre há quem queira desmerecer as decisões tomadas em assembleias.

Olha, as eleições no Brasil e em vários outros países não são uma manifestação de soberania. O povo não consegue impor a sua vontade unicamente elegendo representantes. Para que possa impor sua vontade, seria preciso, em primeiro lugar, que além de eleger, tivesse o poder de destituir.

Isso se chama recall. Isso existe em 15 estados dos Estados Unidos. No momento em que o povo soubesse que ele pode eleger, mas que pode também destituir, a política mudaria de figura.

Em segundo lugar, o povo precisa ter o direito de se manifestar sobre temas econômicos, políticos e sociais diretamente. É preciso abrir o referendo e o plebiscito. O Congresso Nacional impede isso porque é contra o clube deles, tanto de esquerda quanto de direita.

Analisando em termos gerais, vê-se uma reação da sociedade opondo-se fortemente às ações estudantis, tidas como radicais. Qual o papel que a Universidade vem desempenhando na sociedade para que se acabe alastrando esse tipo de opinião?

O grande problema é que a Universidade, todas as universidades públicas de modo geral, talvez com honrosas exceções, agem com objetivos não-republicanos. Ou seja, como se fosse um assunto privado. Professores se ocupam com a sua carreira, funcionários com a sua carreira, estudantes com o seu diploma.

Esta faculdade está no centro de uma metrópole cujo peso de pobreza e de miséria é imenso. A cem metros daqui, nós podemos entrar em um cortiço onde as pessoas alugam cama por algumas horas. E sobretudo no frio, agora no inverno, fazem questão de alugar uma cama de alguém que acabou de sair porque ela está quentinha.

A Faculdade de Direito, que está aqui no centro da miséria, cujas portas se abrem toda manhã com dezenas de pedintes, de miseráveis que dormiram ao relento, a faculdade não se preocupa com isso.

Não há nenhum professor que dê como trabalho prático aos seus alunos cuidar de contratos de locação dos cortiços aqui do centro. Quer cuidar disso? Vai ver como se aluga cama durante oito horas e, portanto, dá três aluguéis por dia.

Quando se trata de discutirmos problema de direito do trabalho, por que não enviar os alunos até quem precisa?

A Universidade pública existe para quê? Qual o objetivo dela? Ela é financiada sobretudo pelos pobres, que não têm o menor retorno da Universidade. É claro que eles têm raiva. Agora, no dia em que as universidades se voltarem para os direitos dos pobres, aí eu quero ver as classes abastadas dizerem que a Universidade só faz desordem e que ela depreda, que ela atinge a Polícia Militar.

O problema brasileiro, fundamental, já foi dito na primeira metade do século XVII pelo primeiro historiador do Brasil, Frei Vicente do Salvador: nenhum homem nesta terra é republico nem zela e trata do bem comum, se não cada um do bem particular.

Com informações da Rede Brasil Atual.

Por Olhos Livres - Jun.09

30 de jun. de 2009

O mal-estar na Universidade

Imagem: Carta Maior

DEBATE ABERTO

O abandono da Universidade Cultural e sua substituição pela “Universidade da Excelência” ou do “Conhecimento” dizem respeito à dissolução do papel filosófico e existencial da cultura. Constrangido à pressa e ao atarefamento diário, o ócio necessário à reflexão e à pesquisa é proscrito como inatividade, os improdutivos comprometendo o princípio de rendimento geral.

A militarização do campus universitário da USP e a solução de conflitos através da força atestam o “esquecimento da política”, substituída pela ideologia da competência, entendida segundo o modelo da gestão empresarial, com seu culto da eficiência e otimização de resultados. Também a proposta mais recente da reforma da carreira docente e do projeto da implantação da Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), respondem, cada qual à sua maneira, à “produtividade”, os acréscimos salariais dos professores subordinando-se ao número de publicações e a seu estatuto— se livro, capítulo de livro, ensaio em revistas, se estas se ajustam ao “selo de qualidade” das agências de financiamento; número de congressos; soma de palestras; orientações de teses e dissertações e, sobretudo, se estas obedecem ao prazo preconizado, tanto mais exíguos quanto mais os estudantes chegam à Universidade desprovidos de pré-requisitos à pesquisa,como um conhecimento adequado do português para fins de leitura e escrita universitária, (guardadas as exceções de praxe), bem como acesso a línguas estrangeiras. De fato, a Universidade se adapta às circunstâncias do ensino médio, e o mestrado pretende contornar as deficiências da formação no ensino médio (e fundamental também), que incidem nos anos de graduação, convertida em extensão do segundo grau.

Professores e estudantes cedem precocemente a publicações, sem que haja nelas nada de relevante, e, ao mesmo tempo, devem freqüentar cursos ou prepará-los, realizar trabalhos correspondentes, desenvolver suas teses - uma vez que a quantidade consagra pontuações para futuras bolsas de iniciação científica ou aprovação de auxílios acadêmicos. Quanto aos docentes, estes se ocupam cada vez mais com tarefas de secretaria, como preenchimento de planilhas, elaboração de relatórios, propostas de inovação em cursos não obstante ainda em vias de implantação, acompanhamento de iniciação científica, organização desses congressos, participação em atividades de iniciativa discente, preenchimento de pareceres on line de um número crescente de bolsistas, e por aí vai. No que diz respeito ao ensino à distância, ele não responde à democratização da Universidade mas a sua massificação.

O abandono da Universidade Cultural e sua substituição pela “Universidade da Excelência” ou do “Conhecimento” dizem respeito à dissolução do papel filosófico e existencial da cultura. Constrangido à pressa e ao atarefamento diário, o ócio necessário à reflexão e à pesquisa é proscrito como inatividade, os improdutivos comprometendo o princípio de rendimento geral. Este encontra-se na base da transformação do intelectual em especialista e da docência como vocação em docência como profissão. O saber técnico é o do expert que transmite conhecimentos sem experiência, cujo sentido intelectual e histórico lhe escapa. Assim como no processo produtivo a proletarização é perda dos objetos produzidos pelos produtores e perda do sentido da produção, a especialização pelo know how é proletarização do saber. Por isso o especialista moderno se comunica por fórmulas, gráficos, estatísticas e modelos matemáticos. Foucault reconhece seu primeiro representante em Oppenheimer que enunciou o projeto Mannhathan - que levou à bomba-atômica - em termos simpaticamente técnicos.

A “Universidade do Conhecimento” perverte pesquisa em produção. Quanto à educação à distância, ela não significa um apoio ao conhecimento e seu acesso a regiões distantes, mas sim o fim de toda uma civilização baseada nos valores da convivência, da sociabilidade e da felicidade do conhecimento.

Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.

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