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16 de jun. de 2012

Cúpula dos Povos começa como contraponto à Rio+20



Mobilização e manifestação: evento da sociedade civil discute problemas ambientais, econômicos, sociais, religiosos e raciais 

A Cúpula dos Povos foi aberta nesta sexta-feira (15) no Rio como um contraponto às discussões oficiais da Rio+20.

Rio + 20, veja os locais da Conferência

BARRA DA TIJUCA

 Riocentro

O Riocentro será, durante a Rio+20, perímetro das Nações Unidas. No local, serão realizadas as sessões plenárias e negociações oficiais da Conferência. Ademais, lá serão realizados os “Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável”, série de debates em que a sociedade civil discutirá temas prioritários da agenda internacional para o desenvolvimento sustentável. Haverá ainda espaços para eventos paralelos da sociedade civil durante o período de negociações oficiais. O acesso ao local depende de credenciamento junto à ONU, responsável pela coordenação dos eventos oficiais da Conferência.

Avenida Salvador Allende, 6555. Barra da Tijuca.

4 de jun. de 2012

A ausência de uma nova narrativa na Rio+20

Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida

Por Leonardo Boff - Revista Fórum - 31.05.2012
 
O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um "futuro que queremos” lema do grande encontro. Assim como está, nega qualquer futuro promissor.

Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustentável ou verde. Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida como a água, solos, fertilidade, florestas, genes etc. O que pertence à vida é sagrado e não pode ir para o mercado dos negócios. Mas está indo, sob o imperativo categórico: apropria-te de tudo, faça comércio com tudo , especialmente com a natureza e com seus bens e serviços.

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18 de mai. de 2012

Cúpula dos Povos na Rio + 20

Divulgação
 Essa cúpula surgiu a partir de uma proposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Assembléia Geral das Nações Unidas (ONU), em 2007
A Cúpula Rio+20, que será realizada em junho de 2012, no Rio de Janeiro, reunirá em um megaevento chefes de Estado e empresários de todo o mundo para construir “alternativas” para os problemas climáticos que a humanidade vem sofrendo por conta do modelo de desenvolvimento capitalista. 

3 de fev. de 2011

O FSM 10 anos depois


Por Emir Sader - Blog do Emir - 27.01.2011

Dez anos depois da sua primeira edição, o FSM volta à Africa, em um cenário mundial muito diferente daquele de 2001. Naquele momento a hegemonia do modelo neoliberal ainda era grande, a economia mundial não havia entrado em crise e, principalmente, a América Latina ainda era dominada por governos neoliberais – naquele momento com a exceção dos da Venezuela e de Cuba.
Passada uma década, o mundo mudou. A crise econômica, nascida no centro do capitalismo, levou as maiores potencias à estagnação, da qual ainda não conseguem sair, enquanto os países do Sul do mundo, que privilegiam a integração regional e não os TLCs com os EUA, já a superaram e voltaram a crescer. O modelo neoliberal perdeu legitimidade, embora siga dominante, mesmo se com afirmações em contrario e com adequações.
Apesar disso tudo, por fraqueza de alternativas à esquerda, o mundo se tornou mais conservador ainda do que há uma década. Mesmo a vitória de Obama e o fim desprestigiado de Bush, não alteraram essa tendência. A Europa de Merkel, Berlusconi, Sarkozy, Cameron, das agudas crises com os respectivos pacotes de FMI em Portugal, Grécia, Irlanda, Portugal, virou ainda mais à direita.
A grande exceção é a América Latina, não por acaso o continente da sede original do FSM. Nesses dez anos, concomitante à realização dos FSMs, o continente foi elegendo, um atrás do outro, presidentes com compromissos de construção de modelos alternativos ao neoliberalismo que derrotavam nas urnas. Nunca o continente teve tantos governos afinados entre si e na linha posneoliberal de prioridade dos processos de integração regional no lugar dos TLCs com os EUA e prioridade das politicas sociais no lugar dos ajustes fiscais.
No FSM anterior, em Belém, a presença mais significativa foi de 5 presidentes, todos latino-americanos, afirmando seu compromisso com a construção de um outro possível. Todos marginais da política tradicional: um arcebispo ligado ao movimento camponês paraguaio, um dirigente indígena boliviano, um intelectual do pensamento critico equatoriano, um líder militar nacionalista venezuelano, um líder sindical brasileiro
Os 5 representam um movimento mais amplo – que inclui também a Argentina, o Uruguai, El Salvador – que constrói os únicos processos de integração – Mercosul, Unasul, Conselho Sulamericano de Defesa, Banco do Sul, Alba, União dos Povos Latinoamericanos – que fez com que esses países tenham avançado significativa na sua recuperação econômica, na diminuição das desigualdades sociais, na extensão dos direitos sociais a toda sua população, na afirmação de politica externas soberanas. A América Latina tornou-se a única região do mundo em que governos se identificam com o FSM e avançam na superação do neoliberalismo.
Propostas do FSM conquistaram espaços nesta década, entre as quais talvez nenhuma como o software livre, como instrumento do direito universal à comunicação. Alguns governos adotaram modalidades de regulação sobre a livre circulação do capital financeiro. A recuperação dos recursos naturais privatizados – entre eles a água – foi realizada por governos latino-americanos. A ideia de que o essencial não tem preço, generalizando direitos a todos, tem ido igualmente praticada por governos posneoliberais na América Latina.
Mas, infelizmente, a crise econômica geral não foi capitalizada por alternativas progressistas em outras regiões – especialmente na Europa. Outros temas do FSM tampouco conseguiram avanços, por falta de forças politicas, com arraigo popular e capacidade de liderança, que pudessem transformá-las em políticas concretas.
Onde isso foi possível, onde se deram avanços reais na construção do outro mundo possível, foi quando a força social – de massas – e ideológica – de propostas – conseguiu se transformar em força política concreta, disputar o poder do Estado e, a partir daí, colocar em prática governos de superação do neoliberalismo. Em distintos graus, isso se está dando na Bolívia, no Brasil, na Argentina, na Venezuela, no Uruguai, no Equador. Porque medidas que superem o neoliberalismo, como a recuperação da capacidade do Estado para induzir o crescimento econômico, para garantir e estender direitos sociais, para defender a soberania nacional, para regular a circulação do capital financeiro, entre outras medidas.
Por isso o outro mundo possível, que tem necessariamente que transcender da esfera social para a politica, encontra nos governos posneoliberais da América Latina seus pontos mais avançados. Enquanto que forças que permanecem auto-recluídas na resistência social, se enfraqueceram, perderam transcendência ou até mesmo desapareceram, sem conseguir colocar em prática concretamente formas de superação do neoliberalismo.
O FSM do Senegal se dá nesse marco politico geral. No anterior, há dois anos, predominou uma certa euforia ingênua e espontaneísta, de que o neoliberalismo – e até mesmo o capitalismo – estariam chegando ao seu final. Estes dois anos reforçaram o argumento de que, sem construção de forças politicas capazes de dirigir processos concretos, que passam pelos Estados – os existentes ou os refundados -, não haverá avanços ou pode até mesmo acontecer retrocessos.
O outro mundo possível está sendo construído concretamente na América Latina, mediante diferentes modalidades de governos posneoliberais , que devem consistir na referência mais rica – nas suas realizações, no seu potencial e também nos seus impasses – para avançar nos ideais que o FSM representou há 10 anos. Mas que, se não superar ele mesmo os limites que se autoimpôs, ameaça seguir girando em falso, dissociado dos processos realmente existentes de construção do outro mundo possível.

Emir Sader é sociólogo e professor

28 de jan. de 2011

A Profissão do Futuro


Por Cristian Adolfo - Teia Livre -26.01.2011

Neste final de semana, acordei e li no jornal Zero Hora o seguinte: “Paralisação de garis atrasa coleta de lixo em Porto Alegre”. Atrasou. E um dia só. Mas era sair na rua que qualquer pessoa, sem nem saber ler, já sabia que o caminhão do lixo não havia passado na noite anterior. Todo lixo atrasado estava lá, intacto. Os trabalhadores, que reivindicavam melhorias nas condições de trabalho, acabaram voltando ao serviço no mesmo dia da manchete. Vai ver foram atendidos, pensei.
Passado o descanso, chega a segunda-feira e vejo na internet outra notícia: “Catadores receberão cursos gratuitos para poderem seguir vidas melhores”. Resumindo, a empresa responsável pela coleta havia ficado sem graça com as exigências dos empregados, resolveu dar um dinheirinho a mais e pagar um curso pra eles poderem seguir novas carreiras. Ou seja, praticamente disseram que se quiserem boas condições de trabalho, terão que arranjar outra coisa para fazer. Depois, contratam outros garis, pois candidatos não faltam. Desavisados, pois não sabem o que lhes aguardam.
Agora, você já parou pra pensar que aquela quantidade de lixo que juntamos com nossos vizinhos e que foi facilmente notada em vários bairros de Porto Alegre no final de semana se repete ao final de todo santo dia? Imagine então o lixo da sua cidade inteira, que a cada dia se renova e tem que ser recolhido novamente. Parece uma tarefa importante para o bom funcionamento de uma cidade, não? E de fato é. Sem isto, nossas ruas seriam um lixão a céu aberto. Muito provavelmente só fomos dar valor a ela após a terrível peste negra, que assolou um terço da população mundial da época da Idade Média, segundo os livros de história. Criou-se a coleta do lixo, que deposita os dejetos hoje em aterros sanitários, e, desde então, estamos livres destas desgraças. Graças aos catadores.
Em qualquer tipo de negócio, incentivar a evasão de trabalhadores insatisfeitos ao invés de tratar pela melhoria das condições de trabalho deles é, no mínimo, uma atitude irresponsável. Vinda de uma empresa cujo serviço é ícone de responsabilidade ambiental então, é algo inadmissível. E isso não acontece apenas no Rio Grande do Sul. Tanto é que um dos documentários brasileiros mais badalados, Lixo Extraordinário, recentemente indicado ao Oscar, se passa no ambiente deste assunto. Ainda não tive o prazer de assistir, mas, apesar de não ser seu foco, o longa retrata as condições a que são submetidos estes trabalhadores tão essenciais para o equilíbrio do nosso país.
O descaso com este tipo de emprego (isso se for considerado tal), nada mais é do que a reflexão do jeito brasileiro de ser: atento a coisas mundanas e pessoais, e alheio ao que realmente importa. Dar atenção ao atrasado e mal administrado processo de coleta de lixo tem que estar dentro dos planos de qualquer cidade do mundo. Muitas vezes mais importantes do que nossos próprios empregos, os catadores tem a obrigação de trabalharem em um ambiente sujo, expostos a restos contaminados e capazes de transmitir doenças. Além disso, ganham pouco. E o lixo, do qual seus empregos dependem, não dá muitos sinais de estar reduzindo de volume nem mesmo de ser separado corretamente pela população.
Felizmente, casos raros de bondade ecológica também tem acontecido. Depois de um processo a ritmo muito lento, Belo Horizonte está finalmente anunciando para o final de fevereiro a extinção das sacolas plásticas nos comércios da cidade. Em breve, capitais como Fortaleza e São Paulo também vão iniciar este projeto em grandes lojas de varejo. Ao que tudo indica, a terrível carga de trabalho dos garis e catadores parece estar melhorando. Senão, pelo menos começando a ser notada. Afinal, após quinhentos anos do fim da Idade Média, é de se esperar que haja a tão merecida valorização dessas funções em nossa sociedade. O que um dia de cheiro ruim não faz, né?

5 de nov. de 2010

O Brasil e a questão ambiental


Delúbio Soares (*)

Num dos debates da campanha presidencial, Dilma Rousseff, então candidata petista, foi extremamente feliz ao dizer que existem duas grandes preocupações nos dias de hoje: o meio-ambiente e a paz mundial. E a questão ambiental, não por acaso, tomou lugar de importância no cenário político e na discussão dos grandes temas nacionais.
O balanço do governo Lula na área ambiental é sabidamente positivo: houve uma queda contínua e consistente do desmatamento na Amazônia, a maior queda nos últimos 20 anos, e foram criadas novas e grandes áreas de Unidades de Conservação, fazendo com que o Brasil se tornasse referência mundial na conservação e proteção ambiental.
Nenhum outro governante antes de Lula teve tanta sensibilidade para com a questão ambiental, tratando-a com respeito, competência e sincera devoção. O próprio presidente, homem antenado nas questões fundamentais do país e da humanidade, chamou a si a condução das políticas da área e comandou a luta por importantes conquistas para o Brasil e os brasileiros.
Durante o Governo Lula houve o fortalecimento e investimentos nos órgãos ambientais, dotando-os das condições necessárias para o desempenho de suas missões, o que possibilitou uma maior fiscalização bem como proteção das Unidades de Conservação e o permanente combate ao desmatamento.
Depois de importantes avanços na área ambiental, coroados pela participação singular do Brasil na Conferência de Copenhague, onde nossa delegação – chefiada pela então ministra Dilma Rousseff – apresentou as melhores e mais inovadoras propostas para a preservação do meio-ambiente e a luta contra o aquecimento global, existem pontos fundamentais a serem debatidos e políticas a serem implementadas na área.
Creio, por exemplo, ser fundamental ampliar os recursos materiais e aumentar as dotações orçamentárias a fim de propiciar as condições necessárias para a fiscalização de nossos parques e áreas prioritárias à conservação; investir em pesquisa de ponta para dominarmos o pleno conhecimento da nossa riquíssima biodiversidade e assim poder preservá-la da maneira mais correta e sustentável. Nossos biomas são de importância extraordinária, autênticas riquezas da humanidade.
Há uma jóia em nosso país, herança de iniciativa visionária de Dom João VI, que é o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Como estudioso do assunto e entusiasta da área, considero-o um dos melhores do gênero em todo o mundo e precisamos dotá-lo de mais recursos para que o mesmo possa realizar pesquisas, continuar suas atividades de preservação de diversas espécies de nossa flora nativa e persistir em sua missão na Cidade Maravilhosa.
É absolutamente necessária a manutenção doatual Código Florestal. A proposta de redução das APP’s (matas ciliares e morros) não tem o nosso apoio e será responsável por diminuir em grande parte os corredores de biodiversidade formada por estas áreas que dão abrigo e alimento à fauna e servem como banco genético para a flora. Não podemos permitir que esse crime contra o meio-ambiente, mas, principalmente, contra o futuro do planeta, seja perpetrado.
Defendemos, também a criação de lei de proteção ao meio-ambiente através de incentivos financeiros aos produtores rurais e ampliação de investimentos de pesquisa na EMBRAPA e outros órgãos de fomento para o aumento da produção rural, com novas tecnologias, melhoramento genético de sementes e criação de variedades mais adaptáveis às condições climáticas de cada região do Brasil. Desta forma aumentaremos a produtividade nas propriedades rurais sem que seja preciso desmatar áreas de proteção da fauna e flora, alavancando assim a produtividade e garantindo maior retorno financeiro aos produtores rurais. É possível, pode ser feito e a preservação ecológica não importa de forma alguma em qualquer tipo de sanção ou cerceamento à nossa pujante agroindústria.
Incentivar a agricultura familiar através da conversão da agricultura tradicional para a orgânica é uma maneira segura de aumentar a renda dos agricultores e diminuir a poluição dos rios, a contaminação do solo e a degradação ambiental. Além de diminuir o consumo de agrotóxicos pela população e gerar imensa economia na área da saúde, com a diminuição de doenças causadas pelo excessivo consumo destes através dos alimentos.
A instituição do “IPI Verde” para as empresas ecologicamente responsáveis será uma grande inovação na vida nacional. As empresas que investirem em novas tecnologias “limpas” e na preservação ambiental, terão redução progressiva das alíquotas do imposto, possibilitando assim que os empresários tenham melhores condições de competição ao assumirem, também, a agenda ambiental em seu sistema de produção. Os ganhos para o país serão evidentes: diminuição dos gastos da saúde pública em decorrência dos menores índices de poluição e conseqüente diminuição de doenças respiratórias, além de uma indústria responsável e competitiva.
O tema é palpitante e nosso interesse por ele é imenso. Os avanços do governo Lula serão certamente consolidados pela administração da presidenta Dilma e sua equipe. Ela já demonstrou sua sensibilidade para a questão do meio-ambiente e sua decisão de fazer mais e melhor.
O que está em jogo é, apenas e tão somente, o futuro do Brasil, do planeta terra, das gerações futuras.
(*) Delúbio Soares é professor
www.twitter.com/delubiosoares

Por Jussara Seixas - 05.11.2010

15 de jul. de 2009

Por dentro da tal Agenda 21 - Mãos à obra: a hora é agora - Ação Educativa Lança a 2ª edição do Prêmio Minha Comunidade Sustentável

Entrevista com a ambientalista Nina Orlow . Artigo de Thaís Helena Prado, especialista em gestão ambiental, e José GAlizia Tundisi, mestre em Oceonografia, doutor em Ciências Biológicas e presidente da Associação Instituto Inernacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental (IIEGA) . Reportagens dos ganhadores do Prêmio de 2008

De Carta na Escola - Jul.09
por Ricardo Prado

A ambientalista Nina Orlow explica como essa ferramenta de planejamento e ação participativa pode integrar a escola à criação de sociedades sustentáveis

Todo bom projeto de desenvolvimento sustentável inclui planejar e traçar metas que melhorem a vida das pessoas, gerem renda e criem ações de conscientização em relação ao meio ambiente. Se integrado a uma política pública, tudo conspira a favor para que um projeto, a princípio local, evolua e transforme uma cidade, um país. A Agenda 21 é um instrumento disseminador de planos de ação pelo desenvolvimento sustentável em todo o mundo. Criada durante a Conferência Rio-92, está organizada em 40 capítulos, que abordam desde o combate à pobreza até o desenvolvimento local integrado e sustentável, passando por questões de gênero e proteção à infância. Nesta entrevista, a ambientalista e arquiteta Nina Orlow, participante da Rede de Agendas 21 Locais e do Grupo de Trabalho Meio Ambiente do Movimento Nossa São Paulo, explica quais são as etapas de implementação da Agenda 21 na escola, conta como são algumas das boas experiências realizadas no Brasil e defende que as escolas usem essa ferramenta a seu favor.

Carta na Escola: Como a escola pode introduzir e praticar ações e conceitos da Agenda 21?

Nina Orlow: Para construir a Agenda 21 Local, o Ministério do Meio Ambiente publicou um passo a passo (confira em www.mma.gov.br) que propõe um roteiro de seis etapas: mobilizar para sensibilizar governo e sociedade, criar um Fórum de Agenda 21 Local, elaborar um diagnóstico participativo, implementar, monitorar e avaliar um plano local de desenvolvimento sustentável. Para as escolas há o Com-vida, um incentivo para a prática de agenda 21 Escolar. O segredo é não inventar ações que dificultem a vida da escola. Ter uma data de lançamento do programa é bom. É um momento de se fazer algo para marcar, como convidar autoridades locais, pais e comunidade. A escola deve dar o passo que ela conseguir dar.

CE: O diretor é figura imprescindível para a criação de uma Agenda 21 Escolar?

NO: Isso pode partir do diretor, dos professores ou de um grupo de alunos que queira montar um conselho e mobilizar outras classes. Em cada passo, a diversidade deve aflorar. Mas é claro que o diretor que optar por esse caminho está muito certo porque vai facilitar outras coisas para ele, como a melhora da qualidade de vida da escola e do entorno. Por exemplo, no Jabaquara (bairro da zona sul de São Paulo), o CEU Caminho do Mar está trazendo ações socioambientais para os alunos, porque a diretora participa da Agenda 21 do bairro, que projeta um mapeamento para recuperar as fontes de água da região. Muitas pessoas de idade que conheceram a região antes da ocupação sabem onde estão as fontes e participam.

CE: A Agenda 21 é um processo que não tem fim?

NO: Ela tem metas e indicadores de avaliação, e isso não é tão simples. Há metas de curto, médio e longo prazo. Consertar uma torneira, por exemplo, é de curtíssimo prazo. Para médio e longo prazo, é preciso pensar nos tipos de resultados e em como avaliar se o objetivo foi alcançado.

CE: Como é feita essa avaliação?

NO: É o próprio grupo que coloca isso em prática. Inclusive, o grupo é mutante, porque os alunos vão saindo da escola, e um bom conselheiro tem de formar novos motivadores. Se uma escola vai iniciar uma Agenda 21 e há uma unidade de saúde próxima, um dos indicadores de avaliação que a escola pode buscar é descobrir qual a maior queixa naquela região. É um diagnóstico e pode ser um indicador, depois de um ano, por exemplo.

CE: Índices de violência são indicadores?

NO: Sem dúvida. A questão da violência, muitas vezes, passa pela forte pressão do consumo. Tudo isso poderia ser aplacado se tivéssemos um espaço onde cada um pudesse usar o seu potencial. Tem jovem que na música ou no esporte está conectado com a questão socioambiental. Tudo é bem-vindo em uma escola. A Agenda 21 permite isso.

CE: Que bons projetos de Agenda 21 Escolar a senhora tem visto?

NO: A Agenda 21 Escolar ainda não deslanchou na cidade de São Paulo como a gente gostaria. A cidade de Suzano (interior de São Paulo) tem um plano excelente de Agenda 21 Escolar, que se reflete, inclusive, no currículo. Eles planejam os assuntos ligados ao meio ambiente que serão discutidos em cada ano. Ensinam até biorremediação (utilização de plantas na recuperação de áreas degradadas) para as crianças pequenas. É maravilhoso. Tem uma lógica no avanço da aquisição do conhecimento, o aluno está sempre utilizando o que aprendeu para dar um salto e a prefeitura colocou isso como uma política pública.

CE: O apoio das prefeituras é determinante?

NO: Não é centralizador, mas é essencial. Sem o governo local, coisas que parecem simples, como a arborização, podem ser feitas de forma equivocada. Já aconteceu de plantarem árvores a uma distância de 10 centímetros uma da outra. Às vezes, é preciso alguém da prefeitura para orientar que planta é mais adequada para aquele local. Nós plantamos árvores, mas elas ficam para a cidade. A Agenda 21 é uma política pública que, se for da própria prefeitura, se generaliza.

CE: Os municípios vêm aderindo à Agenda 21?

NO: Ainda estamos engatinhando, todos aprendendo a fazer a Agenda 21. Depois da ditadura, ficamos muito tempo amordaçados e ainda estamos saindo dessa falta de possibilidades participativas na cidade.

CE: Projetos de plantio de hortas vêm se disseminando nas escolas. Essa é uma ação que pode se integrar à Agenda 21?

NO: Não adianta falar da horta sem pensar no consumo responsável e na alimentação saudável. Horta pela horta, sendo que tudo o que foi plantado morreu ou sobrou, não vale a pena. Faz parte ensinar a fazer uma compostagem, que será utilizada na horta. Se uma escola tem uma ação integrada com outras secretarias ou coordenadorias, ela vai trabalhar de uma forma integrada. Não adianta tratar da saúde se não tratar da água e do saneamento. A Sabesp , por exemplo, tem um programa de incentivo à economia de água, o Pura (Programa de Uso Racional da Água), que é uma parceria importante com as escolas. Os alunos podem visitar as instalações e saber como a água chega à sua casa.

CE: Que projetos uma escola pode desenvolver, pensando no tripé social, ambiental e econômico?

NO: A coleta seletiva, apesar de presente, ainda está muito aquém do resultado que gostaríamos. É preciso pensar que o mundo não se restringe à nossa produção de resíduos. Às vezes, começar pelo consumo consciente é mais importante. As escolas responsáveis integram essas duas questões. É uma ação que faz parte do tripé da sustentabilidade. Acontece que a coleta seletiva precisa de um desdobramento. Não adianta separar lixo e a cidade não ter uma central de triagem. Se você vender o material coletado na escola para um ferro-velho, vai ser muito mal remunerado, porque não se paga um preço bom por volumes pequenos. Já uma central de triagem, com catadores, vai receber duas vezes mais o valor que a escola receberia. Vamos deixar os materiais para os catadores e fazer disso um grande movimento para melhorar a cidade toda. Algumas escolas fazem dessa forma, mas a maioria fica restrita a uma questão muito linear. A Agenda 21 nos convida a pensar de forma integrada.

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12 de jul. de 2009

Geração sustentável - Educação ambiental vai além da sala de aula para formar adultos do futuro mais conscientes

Por Verônica Mambrini
PEQUENOS AGENTES Alunos do Pentágono são estimulados a refletir sobre as relações com o meio ambiente

Eles reciclam lixo e transformam restos orgânicos em adubo. Tomam refrigerante de garrafas retornáveis e rejeitam produtos que vêm com muitas embalagens. Plantam árvores desde pequenos e pesquisam na internet o impacto ambiental de suas ações. Ficam escandalizados quando alguém joga lixo no chão ou desperdiça água num banho longo. Se possível, pedalam ou combinam caronas para chegar ao seu destino. Não, não são ativistas ecochatos. Essa é a nova geração que está se formando nas escolas hoje, dos pequenos em idade pré-escolar aos adolescentes questionadores.

A preocupação com ecologia não é propriamente uma novidade, pois há cerca de 20 anos vários colégios já abordavam questões ambientais. Mas o posicionamento hoje é diferente: o aluno se tornou protagonista e não espectador dos problemas que discute em sala de aula. E espera-se que o estudante leve para a vida o que aprendeu. Eduardo Rios Lohmann, 10 anos, do Colégio Pentágono, está envolvido em várias atividades de educação ambiental na escola. Sobra "lição de casa" até para os pais. "Reclamei com minha mãe até ela parar de escovar os dentes com a torneira aberta", orgulha-se. A mãe, a pedagoga Glória Lohmann, se diverte com a fiscalização. "É uma coisa dele, mas a escola e os programas de tevê aos quais ele assiste reforçam a noção de consciência ambiental", afirma.

No Pentágono, o professor de ciências Rogério Tadeu Sant'Anna usou uma oficina de reciclagem de lixo eletrônico para conscientizar os alunos. Eles trazem de casa eletrodomésticos que seriam descartados, desmontam as peças e as encaminham para reciclagem. "Eles passam a reconhecer os materiais, o que é reciclável e o que não é, e aproveitamos para discutir o consumismo", afirma Sant'Anna. Já foram desmontadas mais de três toneladas de aparelhos quebrados e sem possibilidade de conserto.

No interior de São Paulo, em Sorocaba, a palavra de ordem do Colégio Véritas é pedalar para reduzir emissões de carbono, exercer a cidadania e ocupar o espaço público. "O uso da bicicleta é fundamental para o meio ambiente e para a saúde", afirma Bárbara Figueroa Muñoz, diretora do colégio. A cada pedalada, os alunos calculam quanto de carbono deixaram de emitir. Outra ação é a Recicleta: com peças doadas, eles montam bikes e as entregam para comunidades carentes. O aluno Eduardo de Lima Helaehil, 13 anos, participa do projeto. "É muito divertido e sei que estou ajudando alguém", diz. Bárbara afirma que, pelo uso diário, a bicicleta promove um aprendizado constante. "A educação tem de gerar transformação."


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Transformar a sociedade mantendo o respeito ao meio ambiente está dentro de toda a grade curricular da Escola Stance Dual, em São Paulo. A questão é tão importante para a escola que a instituição é adepta da Agenda 21, compromissos resultantes da Rio 92 (conferência ambiental mundial que ocorreu no Rio de Janeiro em 1992), e tem coordenadoria própria. "É encarado como um projeto transversal. Está em todas as aulas que comportam os conteúdos socioambientais no currículo", diz Débora Moreira, coordenadora da Agenda 21 da escola. "A partir do momento em que o aluno é protagonista, estamos formando cidadãos com conhecimento, que entendem as razões e a necessidade de agir." A Recicloteca da escola, por exemplo, incentiva a transformação de embalagens em brinquedos que serão doados à comunidade.

A aluna Caroline Vecci, 9 anos, participa das campanhas de racionalização do uso da água. Além de mudar sua forma de consumo, ela atua na conscientização de outras pessoas. "Fazemos cartazes e folhetos, ensinando como economizar água. Outra ação importante foi a entrega de marca-páginas e adesivos na rua", diz a estudante.

Outro recurso com bastante relevância na formação dos adultos de amanhã são as excursões in loco. Morador de Cuiabá, João Vitor de Ceni Diogo, 12 anos, tomou consciência dos impactos do turismo em uma viagem ao Pantanal. "Vale a pena investir em turismo sustentável para que as próximas gerações possam ver o Pantanal como a gente vê hoje", diz o menino. A vivência direta da realidade é fundamental para tocar os alunos, acredita a professora de João Vitor e responsável pelo projeto, Aparecida de Fátima Trandini, do Colégio Salesiano São Gonçalo. "Damos ferramentas para que eles mantenham viva a riqueza natural", diz Aparecida. O importante é fazer a educação ambiental ultrapassar os muros da escola.

FOTOS: ROGÉRIO ALBUQUERQUE, MURILLO CONSTANTINO - AG. ISTOÉ. ARTE: EDI EDSON