O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva enviou uma carta para a
abertura da Arena Socioambiental da Rio + 20, que aconteceu na manhã
deste sábado (16), no Rio de Janeiro. Lula estava na programação
original do evento mas, atendendo a recomendações médicas, cancelou sua
viagem ao Rio neste sábado. Durante a semana que vem, com uma agenda
reduzida, Lula participará da Conferência Rio + 20.
Em sua mensagem, Lula destaca que “o mundo vive o momento de discutir
e resolver a equação de como crescer, incluir marginalizados do sistema
e da sociedade de consumo, e preservar o planeta. Esse é o desafio do
nosso tempo, o legado que temos de deixar para as gerações futuras.”
Leia abaixo a íntegra da carta:
“Cara ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campelo;
Cara ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira;
Caro ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas,
Amigas e amigos,
O mundo vive o momento de discutir e resolver a equação de como
crescer, incluir marginalizados do sistema e da sociedade de consumo, e
preservar o planeta.
Esse é o desafio do nosso tempo, o legado que temos de deixar para as gerações futuras.
A Rio+20 tem autonomia, poder e credibilidade para enfrentar estes
desafios e construir uma agenda de desenvolvimento sustentável.
A Arena Socioambiental, inaugurada hoje, vai ser um espaço importante
de discussão de políticas entre governos, movimentos sociais e as
organizações da sociedade civil. Esses setores têm um papel fundamental
na construção dessa sustentabilidade. Têm o papel de educar pessoas e
estimular a vontade política de governantes para trabalhar em favor de
toda a humanidade.
O ponto zero dessa ação deve ser a preservação da nossa
biodiversidade, e o reconhecimento de que o acesso aos recursos naturais
do planeta e aos alimentos nele produzidos é um direito de cada um dos
que aqui habitam.
Tenho a convicção de que justiça é a palavra-chave dessa equação. O
único futuro possível para a humanidade é o proporcionado pela justiça.
E, por justiça, todas as bocas do mundo devem ter alimentos suficientes.
Por justiça, todos os homens e mulheres do planeta devem usufruir dos
recursos naturais disponíveis sem degradar o ambiente e comprometer o
futuro de filhos e netos.
A crise financeira mundial que se arrasta desde 2008 está fazendo um
grande estrago e levando uma boa parte da população mundial para uma
pobreza que o mundo desenvolvido já havia se esquecido como era. É uma
situação dramática, mas que tem um lado revelador.
A crise atual expõe um mundo fragilizado pela enorme concentração de
renda nas mãos de poucos países e poucas pessoas, e por uma ordem em que
poucos consomem muitos recursos naturais e muitos pagam o preço da
degradação do meio ambiente.
A modernidade é vista como a era do consumo, mas esse estereótipo esconde uma realidade dura. Não são todos os que consomem.
A realidade dos últimos 30 anos é cruel: 10% da população global
detêm 57% da renda global. É esse décimo da humanidade que é responsável
por metade das emissões globais de carbono.
O avanço científico e tecnológico conquistado pelo mundo é suficiente
para acabar com a fome, para recuperar as áreas degradas e para tomar
medidas para prevenir a maior deterioração do meio ambiente. Para isso,
no entanto, é preciso de vontade política.
Eu acredito que a maior carência do mundo hoje é a de vontade política dos governantes.
A vontade política, no entanto, é um imperativo. Graças a ela, já
contamos às dezenas os países que encontraram a via do desenvolvimento.
Na África, na América Latina e na Ásia,nas regiões que durante muito
tempo foram vistas meramente como fornecedoras de matérias primas para o
mundo desenvolvido, centenas de milhões de pessoas começam a ter uma
vida melhor. Mas ainda falta muito.
O Brasil tem exemplos a dar nessa Conferência que reúne governantes
de países ricos, pobres e em desenvolvimento; técnicos, pesquisadores,
educadores, instituições, entidades populares, sindicatos, associações,
organizações não governamentais de todos os pontos do planeta. O país
integrou suas agendas econômica, social e de preservação do meio
ambiente.
No meu governo e no da presidenta Dilma Rousseff, 28 milhões de
brasileiros saíram da pobreza e quase40 milhões entraram na classe
média. Ao mesmo tempo em que faz esse esforço de inclusão social e
crescimento econômico, o país assume sua responsabilidade frente às
emissões de gases de efeito estufa.
Em 2009, na Conferência do Clima em Copenhagen, apresentamos metas
voluntárias de redução da emissão de 36,1% e 36,9% até 2020. Até 2016,
devemos cumprir a meta.
É indispensável que sejam construídos novos mecanismos e instrumentos
de regulação para reverter as tendências atuais. E que todos os países
deem a sua contribuição.
Para mudar esse modelo, é preciso construir um amplo acordo político e social. Esse é o momento.
Eu lamento não estar pessoalmente nesse Fórum. Infelizmente, ainda
estou passando por um processo de recuperação de meu tratamento de
saúde. Não poderei participar de todos os eventos que considero
importantes na Rio mais 20.
Levo até vocês, todavia, por meio dessa carta, o meu compromisso com
as causas da Rio mais 20,e minhas sinceras esperanças de que daqui saiam
as novas luzes para a criação de um planeta solidário.
Essa é uma missão para toda a sociedade, suas instituições, suas organizações e suas lideranças. Em especial o crescente engajamento de amplos setores da sociedade, refletidos neste encontro, é o que efetivamente garantirá este avanço.
O governo brasileiro, comandado pela presidenta Dilma Rousseff, certamente fará a sua parte.”
Do Instituto Lula
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