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26 de jun. de 2012

O Egito e o Paraguai vivem situações similares

Opera Mundi
 
Durante as longas ditaduras que os dois países sofreram, só foi tolerada a oposição moderada, que compactuava com a ditadura: o Partido Liberal no Paraguai, a Irmandade Muçulmana no Egito.
 
Por Emir Sader - Carta Maior
 
Países com longas ditaduras não passam simplesmente da ditadura à democracia, apagando seu passado e escrevendo a nova página da sua história como se fosse uma página em branco. Até mesmo porque costumam ser transições institucionais, pacíficas, não rupturas radicais. O passado pesa fortemente sobre as novas democracias, condicionando seu futuro fortemente.
 

12 de fev. de 2011

Egito livre?

 
A sucessão de fatos que desembocou na renúncia de Mubaraki pode ser considerada uma vitoria do povo egípcio.
Mas, afinal, Mubaraki caiu ou renunciou?
Porque a imprensa não decide o enforque sobre estes fatos, a nomenclatura do ato final?
Se caiu foi o povo e sua revolta, intermitente ao longo de 18 dias, desafiando o aparato repressivo do Estado, quem forçou, no sentido mais incisivo da palavra, a queda do ditador, aliado dos americanos, preposto dos israelenses.
Se Mubaraki renunciou, o povo também contribuiu para sua renúncia, mas este ato deixa claro que Mubaraki saiu pela incapaz sustentabilidade de se manter um governo com seu nome a frente, mas preservando todos os demais personagens que o próprio Mubaraki nomeou.  Aí pode-se considerar um 'empate técnico" de israelenses e norte americanos.

De qualquer forma a queda de Mubaraki, por renúncia ou deposição popular, revela a fragilidade dos governos autoritários do oriente médio, sustentados unicamente  na ação repressiva de governos que não respeitam os anseios populares e impõe suas vontades pela força, ignorando os mais básicos direitos humanos e sem serem importunados pela ONU, EUA e a grande imprensa mundial, inclusive pela filial brasileira desta corporação, que ao longo de 30 anos dedicou pouco ou quase nada de suas edições para condenar o regime egípcio.

A saída de cena de Mubaraki encerra mais um ato triste e arrastado, por 30 anos, de uma ditadura não incomodada por aliados que, sem legitimidade moral e ética, bradam mundo afora pela "defesa da liberdade e democracia", mas que afagam ditaduras fantoches em benefícios próprios.

A vitória do povo egípcio é a vitória da democracia, da liberdade e da soberania dos povos, que contamine toda a região e incomode regimes fechados como os da Arábia Saudita e Jordânia.

Livre mesmo?
Mas a pergunta final que se faz indispensável ao momento: estará o Egito livre? Se quem assume o poder com a queda (ou renúncia) de Mubaraki é o ex-chefe de sua guarda presidencial, O marechal Mohamed Hussein Tantawi, de 79 anos, que comandará o processo de transição no Egito.

Durante a crise das últimas semanas, Tantawi tem sido um dos principais contatos do governo egípcio com os Estados Unidos. Ele já foi visto pelos norte-americanos como um homem resistente às reformas política e econômica. 

Apesar da aparente perda do chefe das "sesmarias egípcias" os EUA mudam o longevo comandante para continuar o controle com a liderança do processo de escolha do futuro governo.

O resultado final ainda pode ser um duro golpe nos interesses de Washington, mas o povo também teve sua parcela de conquista, derrubou o chefe de estado e poderá impor suas escolhas nas eleições de setembro, aprofundando ainda mais o fosso que separa as aspirações populares do povo egípcio, dos interesses genuinamente estrangeiros.

Por enquanto o sabor das mudanças, mesmo que moderadamente, toma conta do mundo livre e democrata.

Com informações da
Agência Brasil
 
Por Claudio Ribeiro - Palavras Diversas - 11.02.2011

9 de fev. de 2011

Movimentos sociais

Direto do Cairo, ativistas cobram posição do FSM contra Mubarak
Em conexão direta pela internet, militantes que ocupam a Praça Tahrir, na capital do Egito, pediram aos participantes do FSM a solidariedade e a vigilância internacional sobre a repressão contra o povo egípcio. Delegação do país árabe que veio a Dacar espera do FSM crítica contundente ao governo de Mubarak.
Dacar, Senegal – De um lado, cem mil pessoas na Praça Tahir, no Cairo, coração da revolução que acontece no Egito. De outro, militantes e ativistas apertados num cibercafé na Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar, onde acontece o Fórum Social Mundial 2011.

Pela internet, alguns minutos de conexão permitiram àqueles que vieram ao Senegal enviar uma mensagem de apoio e cumplicidade àqueles que lutam por liberdade e democracia no Egito. E possibilitou àqueles pedir o apoio e a vigilância da comunidade internacional à situação verificada no país.

“Falo neste momento da Praça Tahir, que agora foi batizada por nós de Praça da Revolução. Há mais de cem mil pessoas aqui. No domingo, mais de dois milhões marcharam em todo o país. O número não para de crescer. E as pessoas continuarão chegando até [Hosni] Mubarak sair”, disse Alaa Shukrallah, do Centro de Apoio ao Desenvolvimento, referindo-se ao presidente do Egito.

“Em poucos dias construímos um movimento como nunca, numa grande união do povo egípcio, inclusive entre cristãos e muçulmanos. Mas este é o resultado do acúmulo da luta pelo direito à educação, à saúde. Agora lutamos pela liberação do país. Queremos uma vida melhor, dignidade, democracia e justiça social”, acrescentou.

Para conquistá-la, será necessário manter o movimento vivo, mas contar também com o apoio da comunidade internacional à soberania e respeito da vontade do povo egípcio.

Na avaliação da delegação do país que veio ao Fórum Social Mundial, não será fácil derrubar o presidente. Ainda assim, caso o Ocidente permita que seu governo caia – em nome da “estabilização do Egito” –, é grande o risco de que alguém similar seja colocado no lugar.

“Mubarak foi capaz de implantar o neoliberalismo em nosso país. As grandes empresas podem lavar o dinheiro do povo e ninguém acha que isso é corrupção; todos os serviços públicos e bens comuns foram privatizados; Israel continua sendo o único poder militar na região. Por conta disso, o Ocidente não vai deixar o povo egípcio definir seu futuro”, acredita Hani Serag, coordenador do Movimento Popular de Saúde, que coordenou a conexão do lado senegalês.

“Mubarak vai sair porque tem que sair, mas vão colocar alguém apresentado ao povo como não-corrupto, alguém aceitável. Uma mudança completa só vai acontecer se o movimento continuar.”

Vigilância permanente

A expectativa é de que os movimentos presentes ao Fórum pressionem o atual governo do Egito a deixar o poder, possivelmente por meio da divulgação de um forte documento. As entidades do egito que participam do FSM contam com a solidariedade internacional neste sentido. Mas também chamam a atenção para a necessária vigilância, permanente, do que ainda está em andamento no país.

“Numa só noite mataram nove e deixaram 950 feridos. Eles querem que evacuemos a Praça. Nós queremos os olhos internacionais na Praça Tahir o tempo todo. A solidariedade e a vigilância internacional tornam isso possível”, acredita Wedad Ekkerdaoui, tradutora, que participa do Fórum com este objetivo. “Só o movimento das ruas pode mudar o sistema.”

Da Praça Tahir, a jovem voluntária Sally Samy reforça o pedido: “É muito perigoso ficar aqui em protesto permanente contra as forças do governo. Algumas organizações têm dado apoio médico àqueles atacados pelo governo, estamos trazendo suprimentos para quem continua na rua, mas precisamos de apoio. Todos precisam saber dos crimes cometidos por Mubarak contra aqueles que protestam. Eles devem ser responsabilizados. Espero que um dia esse regime termine”.

Reflexão mais profunda

Além de inspirador, o sentimento no FSM em relação ao que acontece no Egito e à luta, de certa forma já vitoriosa, na Tunísia, tem provocado reflexões mais profundas sobre as demandas históricas altermundistas. Há muito não se vê um movimento de massas autodenominado revolucionário, como agora presente nos países árabes do Norte da África.

“A última vez que isso aconteceu foi em 1989, na Alemanha, e o resultado foi a queda do Muro de Berlim. A repercussão deste processo na Europa e na África será grande. Há um tipo de sentimento revolucionário que está se desenvolvendo na mente das pessoas. Haverá um resultado no nível de consciência das pessoas”, acredita o belga Eric Toussaint, do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo e presença constante nos Fóruns Sociais.

Se a ideia de enfrentar de fato governos em nome da justiça social contaminar positivamente a Europa, um novo cenário pode se desenhar para os movimentos de trabalhadores que sofrem os resultados concretos dos planos de ajuste estrutural e da nova onda de austeridade levada adiante por líderes europeus.

“Na França, por exemplo, os movimentos se recusaram a questionar de forma mais dura o governo Sarkozy. Tunísia e Egito agora mostram que isso é necessário, que a questão política deve estar no centro do debate”, afirma Toussaint. 

Por Bia Barbosa - Carta Maior 

7 de fev. de 2011

Declina a influência do Ocidente

Da Carta Maior - 06/02/2011

No mundo árabe, os Estados Unidos e seus aliados apoiaram com regularidade radicais islâmicos, às vezes para prevenir a ameaça de um nacionalismo secular. Um exemplo conhecido é a Arábia Saudita, centro ideológico do Islã radical (e do terrorismo islâmico). Outro em uma longa lista é Zia ul-Haq, favorito do ex-presidente Ronald Reagan e o mais brutal dos ditadores paquistaneses, que implementou um programa de islamização radical (com financiamento saudita). O artigo é de Noam Chomsky.


Noam Chomsky – La Jornada
O mundo árabe está em chamas, informou a Al Jazeera no dia 27 de janeiro, enquanto os aliados de Washington perdem rapidamente influência em toda a região. A onda de choque foi posta em movimento pelo dramático levante na Tunísia que derrubou um ditador apoiado pelo Ocidente, com reverberações, sobretudo no Egito, onde os manifestantes enfrentaram a polícia de um ditador brutal. Alguns observadores compararam os acontecimentos com a queda dos domínios russos em 1989, mas há importantes diferenças.

Uma diferença crucial é que não existe um Mikhail Gorbachov entre as grandes potências que apoiam os ditadores árabes. Ao invés disso, Washington e seus aliados mantem o princípio bem estabelecido de que a democracia é aceitável só na medida em que se conforme a objetivos estratégicos e econômicos: ela é magnífica em território inimigo (até certo ponto), mas em nosso quintal, a menos que possa ser domesticada de forma apropriada.
Do ContrapontPIG - 06.02.2011

2 de fev. de 2011

Quem faz revolução é gente. Não coisifiquem a revolução!

Interessante discussão no Twitter sobre o peso da internet na revolução egípcia que, 8 dias depois de seu início, ainda não tem conclusão possível. Quem disser que sabe aonde vai dar estará mentindo.


O debate começou entre @caribe, o ciberativista fusion João Carlos Caribé (o blog dele, Entropia, lembra meus primórdios na internet: em 1993, quando cheguei à rede pelas mãos do Sérgio Charlab, lá no velho JB, ela era puro texto; quando apareceu a web gráfica, pouco depois, um dos primeiros sites com imagens foi um tal Entropy, impressionante, chocante, que me sinto incapaz de linkar agora porque a net é hoje uma loucura entrópica). Pois bem, @caribe discutia com @ALuizCosta, o escritor e humanista Antonio Luiz Costa, colunista da CartaCapital, sobre o peso da internet nos protestos em curso no Egito. Duas pessoas de esquerda.

@ALuizCosta dizia frases assim:
* A internet é útil, mas não está só a seu/nosso favor. É um instrumento de espionagem e controle de empresas e governos, também
* A internet foi bloqueada e não fez diferença alguma para os protestos. Mubarak iludiu-se, como vocês
* Não foi preciso internet para derrubar a Bastilha, lembra?
* Da demissão de Necker (11 de julho) à queda da Bastilha (14 de julho) foram três dias. Nada mau 
*  Página 1/26 de panfleto egípcio "Como protestar de maneira inteligente", via @yurikropotkin 
*  Página 26/26 do panfleto egípcio "Como protestar de maneira inteligente", via @yurikropotkin
* Parece que Mubarak comprou o mito de que há "revoluções por Twitter", tanto que derrubou a web. Mas só prejudica a economia
* A rede está fora do ar há dias e os protestos são cada vez maiores. E a maioria dos egípcios nem tem acesso à internet
@caribe dizia frases assim:
* Ja falaram, com a Internet toda revolução é mais rápida, democrática e eficiente
* E não entendo esta dificuldade de alguns de entender a Internet como a maior ferramenta de democracia de todos os tempos
* E digo mais, é impossivel hoje em dia qualquer mobilização daquele porte sem uma comunicação em rede
* Por fim acreditar naqueles papeis chega a ser inocente, ainda mais pensar que eles não serão interceptados
Aqui no Brasil mesmo, paramos o AI5digital usando Twitter, Orkut, Blogs e email.
* É a sindrome de Gladwell/Keen - Alias o povo ainda enxerga a rede e as ruas como duas coisas estanques.
E recomendou textos e mais textos e mais textos e mais textos interessantíssimos para que "entendamos" o poder da rede. E quem não entende esse poder não passa de um conservador inconformado com essas óbvias mutações. Ele diz, por exemplo, isso:


Ou seja, a internet é deus (como todo bom nerd ele usa até maiúscula na inicial de internet; aposto que não usa para jornal, televisão, rádio, cassete, máquina fotográfica... sou iconoclasta em matéria de caixa alta, como boa filha do velho JB, que mantinha saudável desrespeito a tudo e todos -- do presidente ao papa, é caixa baixa, exceto em nome próprio). A internet é quase que meio e fim, a razão pura, o 42 do Mochileiro das Galáxias.

Difícil concordar inteiramente; não sou adoradora da internet não, eu uso a internet, e pra caramba! Já o @ALuizCosta, tuiteiro "contumaz", de repente estava minimizando ao máximo o papel das redes, até exagerando, como não raro nos acontece sob pressão. Olhem só este tweet:


Claro que panfletos podem ser interceptados, assim como a internet pode ser derrubada (no Egito, bastaram alguns telefonemas de Mubarak e sua quadrilha, encastelada no poder há 30 anos e disposta a mantê-lo). Mas graças à internet posso ver a Jazeera em inglês, acompanhar os acontecimentos pelo Twitter, assinar uma petição de apoio, ler os textos sensacionais do Robert Fisk e do Pepe Escobar. O mundo pode dar seu apoio aos manifestantes e Mubarak não pode mais esconder seus segredos, como tenta pateticamente sua patética TV Nile.

Só que o buraco é mais embaixo. @ALuizCosta indicou apenas um texto -- The Twitter Revolution Must Die --, um desses textos que caem na nossa cabeça pela força da gravidade e fazem diferença em nossas vidas. Ulises Mejias, o autor, professor-adjunto da Suny Oswego (State University of New York at Oswego), considera que ambos os lados deste eterno debate (a internet como o Olimpo de Zeus ou o Submundo de Hades) sofram do que chama de "determinismo tecnológico". Para ele, a resposta está no meio, porque tecnologia e sociedade mutuamente e continuamente influenciam uma à outra, ufa!, e esse discurso sobre a alegada revolução das redes sociais é apenas outra forma de despolitizar nossa compreensão dos conflitos, de encobrir o papel do capitalismo na supressão da democracia. Ufa! Ufa! "Que poderosa afirmação de nós mesmos acreditar que as pessoas envolvidas numa luta desesperada pela dignidade humana estejam usando os mesmos produtos da web 2.0 que nós usamos!" Ufa! Ufa! Ufa! E por aí vai (TRADUZIDO AQUI). Mas o melhor estava no princípio: "Você já ouviu falar da revolução da Leica? Não?" Ele fala da Revolução Mexicana, a primeira obsessivamente fotografada, e prossegue:
"(...) Meu sarcasmo é, naturalmente, mal velada tentativa de apontar o absurdo que é, na referência aos eventos no Irã, na Tunísia, no Egito e em outros lugares, como a Revolução do Twitter, a Revolução do Facebook e assim por diante. O jeito com que chamamos as coisas, os nomes que usamos para identificá-las tem um poder simbólico incrível e eu, por exemplo, recuso-me a associar marcas corporativas às lutas pela dignidade humana. Concordo com Jillian York, quando ela diz:
"(...) Estou contente que os tunisianos tenham sido capazes de usar as mídias sociais para chamar a atenção para sua situação. Mas não vou desonrar a memória de Mohamed Bouazizi [que se incendiou nos protestos] ou a dos outros 65 que morreram
por suas causas nas ruas, por isso, nada de dublagem, não chamarei isto de outra coisa a não ser de revolução humana."

UAU! Já tinha me metido no papo das duas feras um pouco do lado do @ALuizCosta pra defender o poder "das ruas", que no passado deve ter sido declanchado até a partir de sinais de fumaça, um pouco do lado do @caribe, porque a internet, de fato, facilita as coisas. Só que estava na minha cabeça, a partir de uma tuitada alheia de dias atrás que não arquivei, a teoria da revolução de Marx, esse gênio que enquanto errava feio na Alemanha profetizava tudo o que estamos vendo no mundo há uns 160 anos. E achei um ensaio, A Comuna de Paris e a teoria da revolução em Marx: Do balanço na "Guerra civil em França" às conclusões de Engels no "Testamento" de 1895, de Valério Arcary, que é doutor em História Social (e do PSTU...), cujo último parágrafo é o seguinte:
"Assim como a crise econômica incide sobre as lutas de classes, porque abre e precipita a crise social, as lutas de classes, a maior insegurança ou maior determinação de cada classe social na defesa de seus interesses, também incide sobre o processo econômico, aprofundando as tendências à crise ou favorecendo a recuperação." 
Aí estão as palavrinhas mágicas. Luta de classes. Todos sabem como sou fanática pela rede, como festejo esse poder imenso (quase o mesmo da CIA, hahaha!), mas revolução pela internet? Sou conservadora por achar que nossa humanidade seja a força que move essa doideira de mundo? E que a luta de classes é que bombeie as transformações? Então, sou. A humanidade nas ruas, resistindo, é a força que (ok, vou ser antiga!) hardware, o que você chuta, ou software, o que você xinga, algum pode substituir. Ajuda nos combates, demais. Mas a luta de classes empurra e a gente faz.

E viva a revolução! 

 Por Marinilda - Zumbaia Zumbi - 02.02.2011 


Do Teia Livre