29 de abr de 2012

Galeano: O melhor da vida é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância do destino

* Eduardo Galeano
Ana Maria Mizrahi - La Ventana

“Cada vez que uma cigana se aproxima de mim para ler as mãos, peço-lhe por favor, que lhe pago para que não a leia. Não quero que me digam o que vai acontecer, o melhor que a vida tem é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância sobre nosso destino. A explosão dos indignados começou na Espanha e logo estendeu-se para outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro (intelectual brasileiro já falecido) que o mundo se divide entre os indignos e os indignados, e é preciso tomar partido, é preciso escolher”.


-Por que esse título, “Los Hijos de los Dias”(1)?
-Segundo os maias, nós somos filhos dos dias, o seja, o tempo é que funda o espaço. O tempo é nosso pai e nossa mãe, e sendo filhos dos dias, o mais natural é que de cada dia nasça uma história. Estamos cheios de átomos, mas também de histórias.

-Dentro dessas histórias, há muitas vinculadas à nossa vida cotidiana. Você assinala: “vivemos em um mundo inseguro”. A particularidade é que sugere que existem diferentes concepções sobre a insegurança. A que você se refere?
-Muitos políticos no mundo inteiro – não é algo que acontece somente em nosso país – exploram uma espécie de histeria coletiva a respeito do tema da insegurança. Te ensinam a ver o próximo como uma ameaça e te proíbem vê-lo como uma promessa; ou seja, o próximo - esse senhor e essa senhora que andam por aí – podem te roubar, violar, seqüestrar, mentir, rara vez te oferecer algo que valha a pena receber. Creio que isso faz parte de uma ditadura universal do medo. Estamos treinados para ter medo de tudo e de todos, e essa é a justificativa necessária para a estrutura militar do mundo. Este é um mundo que destina metade de seus recursos para a arte de matar o próximo. Os gastos militares - que são o nome artístico dos gastos criminais – necessitam de uma justificativa. As armas necessitam de guerra, assim como os abrigos necessitam de inverno.

-Quando fala dos medos, você joga com essa palavra para assim mencionar os meios e tem uma história que é “os medos de comunicação”. Que lugar você atribui aos meios para esses medos?
-Às vezes os meios atuam como “medos” de comunicação, então se transformam em “medos de incomunicação”. Isso não é verdade para todos, mas sim para alguns meios que no mundo inteiro exploram essa espécie de histeria coletiva desatada pelo tema da insegurança. Mentem, por que a insegurança não se reduz à insegurança que pode se sentir nas ruas. Inseguro é este mundo, e em primeiro lugar está a insegurança no trabalho, que é a mais grave de todas, e da qual os políticos que exploram o problema da insegurança nunca falam. Não há nada mais inseguro que o trabalho. Todos nos perguntamos: “Haverá amanhã quem me compre? Voltarei ao local de trabalho onde estive? Terá alguém ocupado meu lugar? 

Esse medo real de perder o emprego ou de não encontrá-lo é a fonte de insegurança mais importante. Por sua vez, inseguro é o mundo, a quantidade pessoas que matam com os carros nisso que chamamos de acidentes de trânsito, que na realidade são atos criminais por conta de motoristas que, que tirando suas licenças para dirigir, tem licença para matar, ou a insegurança da maioria das crianças que nascem no mundo condenadas a morrer muito cedo de fome ou de doenças curáveis”

-Aparecem as histórias dos desaparecidos, mas menciono-lhe uma em particular, chamada de “Plano Condor”, onde a história que é contada pertence a Macarena Gelman. Como foi para você conhecer Macarena Gelman?
-Comecei por conhecer o pai de Macarena, Marcelo, e o avô, Juan Gelman, com quem trabalhei na Revista Crisis, em Buenos Aires, e que é meu amigo de toda a vida. São muitos anos de amizade, ou melhor, de irmandade. Juan teve que sair da Argentina para continuar vivo, naqueles dias vividos em Buenos Aires, onde era preciso ir embora ou esconder-se. Então, eu recebia com muita frequência seu filho Marcelo, fazendo o papel de seu pai por algum tempo; depois o mataram, e a outra história é bastante conhecida.

A mulher de Marcelo, Maria Cláudia, foi seqüestrada na Argentina. Eram acusados do delito de agitar, delitos de dignidade que tem a ver com o direito estudantil de protestar. Esses eram os crimes de jovens como eles, que foram assassinados muito cedo. Maria Cláudia foi assassinada no Uruguai, onde já funcionava o mercado comum da morte, que foi o que melhor funcionou até hoje, por que o Mercosur ainda tem graves dificuldades. O mercado da morte funcionou muito bem naquelas horas de terror, onde as ditaduras trocavam favores. Mandaram Maria Cláudia grávida para o Uruguai, e aqui os militares uruguaios assumiram a responsabilidade da tarefa. Esperaram que ela parisse, ela passou seus últimos dias ou talvez seus últimos meses na sede de Boulevard Artigas y Palmar do SID (2), onde foi inaugurada a placa em memória a Maria Claudia e a todos os que estiveram lá.
Impressionou-me o contraste entre a beleza exterior desse palácio e os horrores que ele escondia. Depois dela dar à luz a mataram, e entregaram seu filho a um policial: troca de favores. A partir de uma complicada busca de Juan e seus amigos, conseguiu-se encontrá-la, e agora ela se chama Macarena Gelman. Nos tornamos muito amigos, e certa vez almoçando em casa, contou-me esta história, que é parte da história dos filhos dos dias.
É uma história muito íntima, muito privada, e lhe pedi autorização para publicá-la. É uma história incomum, mas reveladora. Conta que, quando ainda não sabia quem era e vivia na outra casa, com outro nome, nesse período sofria contínuas insônias, que não a deixavam dormir à noite por que a perseguiam sempre os mesmos pesadelos. Via alguns senhores desconhecidos, muito armados, que a buscavam no quarto onde estava dormindo, em baixo da cama, no roupeiro, em todas as partes, e ela acordava gritando e angustiadíssima.

Durante muitíssimo tempo, por toda a sua infância, teve esses pesadelos que a perseguiam e ela não sabia por quê, de onde vinham. Até que conheceu sua verdadeira história, e soube que ela estava sonhando os pesadelos que sua mãe tinha vivido enquanto a modelava em seu ventre. A mãe, uma estudante de apenas 19 anos, era perseguida de verdade por outros senhores armados até os dentes, que a encontraram e a mandaram ao Uruguai para morrer. Macarena estava no ventre dessa mulher acuada e perseguida. Do ventre, ela padecia a perseguição que sua mãe sofria, e depois ela sonhou isso e o transformou em seus próprios pesadelos. Ela sonhou o que sua mãe tinha vivido. É uma história que parece uma metáfora da transmissão, dos sofrimentos, dos horrores, e também de outras continuidades que não são todas horríveis.

-É um livro que contém muitas histórias de mulheres. Por quê?
-Também há muitas histórias de mulheres em meus livros anteriores, como Espelhos e Bocas do Tempo. Há muitas histórias dos invisíveis, e as mulheres ainda são bastante invisíveis. Há histórias de negros, de índios, das culturas ignoradas, das pessoas ignoradas que merecem ser redescobertas, por que tem algo que dizer e que vale a pena ouvir. 

Neste último livro, Os filhos dos dias, há uma história que me impressionou muito, que até agora não tinha escrito ainda, que é de Juana Azurduy. Juana foi uma heroína das guerras de independência. Encabeçou a tomada do Cerro de Potosi, que estava nas mãos dos espanhóis. Ela era a caudilha de um grupo guerrilheiro que recuperou Potosi das mãos dos espanhóis. Depois continuou lutando pela independência, e perdeu seus sete filhos e o marido nessa guerra. Finalmente, foi enterrada numa fossa comum, tendo morrido na pior pobreza que se possa imaginar. Antes, tinha recebido um título militar, e foram as forças independentistas que lhe deram esse título que dizia no mérito: “à sua viril coragem”. Necessitou-se de muito tempo para que uma presidente argentina, Cristina Fernandez, lhe outorgasse o título de General por sua “feminina valentia”.

-Um integrante da Real Academia Espanhola assinalou como um erro utilizar expressões que sobrecarreguem a linguagem. Era uma crítica à feminilização, como, por exemplo, se utiliza todos e todas. O que você pensa a respeito?
-O transcendente é o que há por trás, ainda que por vezes, os conteúdos se reflitam nas palavras que os expressam. Me parece muito ridículo quando uma mulher se apresenta a mim e me diz “sou médico”. “É médica”, respondo-lhe. 

-Há muitas histórias dos povos originários, da luta pelos recursos naturais, e o rol das multinacionais. Em particular, uma história dedicada à selva amazônica..
-Essa história sobre a selva amazônica lembra que a Texaco, empresa petroleira que derramou veneno durante muitos anos, arruinou boa parte da selva equatoriana. Foi à julgamento, mas perdeu. As vítimas desse atentado à natureza e as pessoas desse local não tinham meios econômicos, enquanto que a Texaco contava com centenas de advogados. Contudo, depois de anos, a ação foi ganha, mas ainda não foi colocada em prática por que há muitas maneiras de apelar, de jogar a bola para fora, e para isso não faltam doutores.

-No livro, há um olhar crítico sobre os governos progressistas que ainda não despenalizaram o aborto..
-O livro toca todos os temas sempre a partir de histórias concretas. Não é um livro teórico.

-As 366 histórias não são somente latino-americanas, você recorre o mundo.
-Há muitas histórias que merecem ser recuperadas. Luana, por exemplo, foi a primeira mulher que assinou seus escritos em tabuletas de barros. Aconteceu há quatro mil anos, e dizia que escrever era uma festa. Essa mulher é desconhecida, e vale a pena contar que essa história existiu.

-A respeito da crise internacional, você resgata o que ocorreu na Islândia e o movimento dos indignados na Espanha..
-Essa crise provém de um círculo muito pequeno de banqueiros onipotentes. Ocorreu-me, para essa história, um título sinistro que foi ”Adote um banqueirinho”. Os responsáveis pela crise são os que mais tem se queixado e os que mais dinheiro receberam. Eles têm sido recompensados por afundar o planeta. Todo esse dinheiro destinado aos que causaram o pior desastre na história da humanidade teria sido suficiente para dar de comer aos famintos do mundo, com sobremesa incluída.

-Não lhe parece uma contradição a existência do movimento dos indignados e que ao mesmo tempo o Partido Popular tenha ganho na Espanha?
-A aparição dos indignados é das coisas mais belas que ocorreram no mundo nos últimos tempos. Creio que o melhor da vida é a sua capacidade de surpresa. O melhor dos meus dias é o que eu ainda não vivi. Cada vez que uma cigana se aproxima de mim para ler as mãos, peço-lhe que, por favor, lhe pago para que não a leia. Não quero que me digam o que vai me acontecer, o melhor que ávida tem é a curiosidade, e a curiosidade nasce da ignorância do nosso destino. A explosão dos indignados começou na Espanha, e logo se estendeu para outras partes. É uma boa notícia a capacidade de indignação. Bem dizia meu mestre brasileiro Darcy Ribeiro, que o mundo se divide entre os indignos e os indignados, e que é preciso tomar partido, é preciso escolher.

Lembrei-me muito dele quando surgiu esse movimento. Jovens que perderam seus empregos e suas casas por responsabilidade desses malabarismos financeiros que terminaram por despojar os inocentes de seus bens. Não foram eles que concederam empréstimos impossíveis, não foram eles os culpados da bolha financeira, e desse disparate que acontece na Espanha, de construir e construir, e agora o país está cheio de moradias desabitadas e gente sem casa.

O PP ganhou as eleições, é verdade. A direita ganhou as eleições, e é preciso lutar para que isso mude. Isso que aconteceu na Espanha também fala do desprestígio das forças de esquerda que nascem na vida política prometendo mudanças radicais e depois terminam repetindo a história, em vez de mudá-la. Muita gente, sobretudo os mais jovens, se sente enganada e abandonou a política.    

(1) Os filhos dos dias (N.do T.)
(2) Uma das sedes do Serviço de Informação da Defesa (SID) do Uruguai. (N. do T.)

Via Aporrea

Tradução: Renzo Bassanetti


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