13 de jun de 2009

Relembrar: Choque de gestão’ de Alckmin paralisa São Paulo

Altamiro Borges - Adital - 24.10.06

Talvez já prevendo a derrota do seu candidato, a Folha de S.Paulo finalmente estampou uma manchete crítica ao ex-governador Geraldo Alckmin. A edição desta segunda-feira revela que o governo paulista reduziu em até 80% os investimentos em projetos de infra-estrutura e paralisou várias obras. A matéria confirma o desastre do chamado "choque de gestão" que o candidato tucano queria implantar no país.

Segundo a reportagem assinada por Alencar Izidoro e José Ernesto Credendio, "algumas das principais obras e projetos de infra-estrutura de transporte de São Paulo tiveram seu ritmo reduzido drasticamente ou foram até paralisadas pelo governo de Cláudio Lembro (PFL), que conta os dias para terminar o seu mandato... Os atrasos ou as interrupções dos investimentos - situação que será herdada por José Serra em 2007 - foram intensificados nos últimos meses e envolvem de rodovias do interior à expansão da rede sobre trilho da Grande São Paulo, do Rodoanel ao recapeamento das marginais Pinheiros e Tietê".

Ainda de acordo com o texto, "na metade do ano, Lembo enviou ofício a todos os secretários vetando novos investimentos e determinando ‘redobrada atenção’ e ‘rigorosa austeridade nos gastos públicos’... Das obras em curso de recuperação ou ampliação de estradas, a Folha apurou que a redução do ritmo em diversos casos é de 80%. A orientação é que alguns empregados sejam mantidos, evitando a desativação de canteiros". A matéria não diz, mas é lógico que a maioria dos operários será demitida.

Mito do "gerente eficiente"

A reportagem da Folha de S.Paulo serve para destruir de vez uma falsa imagem criada sobre Geraldo Alckmin. Durante muito tempo, além de blindar a figura insossa do ex-governador, a mídia hegemônica difundiu a o mito de que ele seria um exemplo de "administrador competente" e de "gerente eficiente". Tamanha mistificação enganou alguns inocentes e desinformados. Mas os fatos negam esta pretensa qualidade. Uma rápida pesquisa sobre a desordem administrativa de São Paulo, após os 12 anos sob comando da dupla Covas/Alckmin, desmascara mais esta engenhosa manipulação da mídia venal.

1- Caos na segurança.

A mentira ficou mais visível na delicada e explosiva área da segurança pública. As três recentes ondas de violência urbana no Estado, que causaram a morte de quase 200 pessoas e a destruição de inúmeros bens públicos e privados, confirmaram a total incompetência dos tucanos e a sua insensibilidade social. Segundo o Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional de São Paulo, os sucessivos cortes de verba para o setor resultaram num déficit de 31 mil agentes na área, depreciaram os salários em quase 40% e superlotaram os presídios, que hoje demandam mais 70 mil vagas. Como presidente, Alckmin só teria a oferecer a trágica experiência do PCC, que transformou os presídios em "faculdades" do crime.

2- Abandono da educação.

Também como efeito do choque de gestão, a educação pública sofreu brutal regressão. O ensino médio hoje atende 25% da demanda de jovens entre 15 e 19 anos; de 1999 a 2005, as matrículas baixaram de 1.720.174 para 1.636.526; a taxa de reprovação pulou de 3,6% para 15,6%; e a evasão escolar já atinge a marca recorde de 7% ao ano. Como forma de maquiar este desastre, o governo inventou a "progressão continuada", com a aprovação automática do aluno sem qualquer correspondência com a realidade. Já foram encontrados estudantes analfabetos na quarta série devido a esta maquiagem. Levando em conta que o analfabetismo atinge 6,6% da população e que há mais cinco milhões de analfabetos funcionais (18% dos paulistas acima de 15 anos), fica patente a incompetência da "turminha do Alckmin".

3- Mercantilização da saúde.

Para impor o "estado mínimo" na saúde, o PSDB entregou os hospitais públicos à iniciativa privada sob a camuflagem das tais Organizações Sociais de Saúde (OSS). Elas administram os hospitais através dos contratos de terceirização, sem licitação ou qualquer controle do Tribunal de Contas. Atualmente, já são 18 hospitais, três ambulatórios de especialidades e um centro de referência para idosos entregues para a iniciativa privada. Além disso, o governo Alckmin cortou 170 mil cargos funcionais na área da saúde entre 1994 e 2006. Os hospitais geridos pelas OSS não realizam os atendimentos mais complexos para tratar apenas dos casos simples, classificados como de "rotatividade rápida". Já os mais "caros" acabam sobrecarregando os hospitais da administração direta ou servem para elevar os lucros do setor privado.

4- Transporte precário.

A política de transporte também se encaixa no modelo neoliberal, socializando prejuízos e privatizando lucros. E ainda serve a interesses sinistros. Em 1997, um diretor da Dersa, Celso Ferrari, provou que as licitações para a privatização das rodovias foram armadas em benefício de empresas privadas ligadas ao PSDB. O caso do Metrô é ainda mais escandaloso. No trecho Linha 4-Amarela, o governo investirá R$ 1 bilhão (73% do total de recursos necessários), enquanto que apenas R$ 340 milhões ficarão por conta da empresa privada que ganhar a concessão por 30 anos. Neste capitalismo sem risco, o grupo privado ganhará com a venda de bilhetes e com outros empreendimentos nas estações e arredores, como lojas, publicidade e estacionamentos. Estima-se que só com tarifas, ele faturará R$ 6 bilhões entre 2008/12.

5- Roubo nos pedágios.

Estudo do Ipea revelou que, entre 1995 e 2005, as tarifas cobradas nos pedágios paulistas subiram em até 716%. O governo Alckmin privatizou as melhores estradas - com pistas duplas, canteiros centrais e situadas nas regiões mais ricas - e ficou com as piores. As 12 concessionárias presenteadas pelo PSDB exploram apenas 3,5 mil quilômetros (16% da malha rodoviária), mas que representam o filé mignon do setor. Após a privatização, o número de pedágios disparou. Em 1995, havia 11 pedágios; hoje, são 153 - sendo que apenas 14 estão sob controle estatal. Na Rodovia dos Imigrantes, que tem apenas 58,5 quilômetros ligando capital ao litoral e possui um movimento anual superior a 30 milhões de veículos, a concessionária Ecovias cobra R$ 14,80 por automóvel. É só fazer a conta para aquilatar o roubo!

6- Privatizações criminosas.

Desde a criação do Programa Estadual de Desestatização (PED), em julho de 1996, setores estratégicos da economia paulista foram "vendidos" a monopólios privados por preços irrisórios. Sob a batuta de Geraldo Alckmin, presidente do PED, foram privatizadas a Eletropaulo, CPFL, Elektro, Cesp, Comgás, Ceagesp, aeroporto Viracopos e as rodovias Bandeirantes, Anhangüera, Castelo Branco, Dom Pedro, Carvalho Pinto, Ayrton Senna, Imigrantes e Anchieta. A alienação deste patrimônio rendeu R$ 35,6 bilhões. Fepasa e Banespa foram federalizados antes de serem privatizados. Os danos à economia foram brutais. No caso do Banespa, ele possuía ativos de R$ 29 bilhões e patrimônio de R$ 11 bilhões. Mas foi "vendido" ao Santander por apenas R$ 7,05 bilhões - que, descontada a isenção fiscal, não pagou nada pela compra.

7- Estado endividado.

Todo este processo de desmonte foi feito sob o pretexto de que era preciso dar um choque de gestão para sanar a dívida pública. Pura balela. Os R$ 35 bilhões obtidos nas privatizações serviram para pagar juros e a situação financeira do Estado só piorou. A dívida publica pulou de R$ 34 bilhões no início do governo tucano, em janeiro de 1995, para R$ 123 bilhões em março passado. Até o Tribunal de Contas do Estado (TCE) tem criticado o volume excessivo de recursos drenados aos especuladores financeiros. Nos últimos três anos, o Estado de São Paulo desembolsou R$ 13,1 bilhões somente com juros e encargos da dívida. Esta política, que favorece apenas as elites detentoras de títulos da dívida, causou a redução de gastos na infra-estrutura e nas áreas sociais. Os investimentos na segurança, por exemplo, foram de apenas R$ 151 milhões em 2005 - 3% do que foi transferido aos banqueiros -, o que explica a guerra urbana no Estado.

8- Apagão na energia.

O desmonte do Estado teve efeitos devastadores na infra-estrutura, em especial no setor de energia. Numa primeira fase, o governo fatiou as três estatais existentes, Eletropaulo, Cesp e CPFL, em onze empresas de geração, distribuição e transmissão de energia. Na segunda, promoveu o leilão das empresas fragilizadas, num criminoso processo de privatização e desnacionalização. Essa política resultou nos famosos apagões entre junho de 2001 e fevereiro de 2002. Geraldo Alckmin destruiu o sistema de energia construído desde os anos 50 e que havia alavancado a industrialização. "Moeda podre", como o Certificado de Ativos, foi usada nos leilões. Com a privatização, piorou a qualidade dos serviços. No caso da CPFL, antes do leilão ela possuía 200 postos de atendimento no Estado; três anos depois, em 2000, eram apenas 30.

9- Locomotiva parada.

O longo reinado tucano foi um desastre para a economia do Estado, que no passado ficou famoso como a locomotiva do país por seu forte dinamismo econômico. Ainda hoje, apesar do desmonte neoliberal, ele é responsável por 31,8% do PIB, 32% das exportações e 45% das importações. A sua receita, provinda dos tributos dos 37 milhões de habitantes, é de R$ 62,2 bilhões. Ele concentra 51,6% dos salários industriais e aloja sete dos 10 maiores bancos do país. Mas esse dinamismo foi emperrado pela medíocre gestão da turma do Alckmin. O peso de São Paulo no PIB, que atingiu 39,5% em 1970, teve queda abrupta. Hoje, a locomotiva está parada e virou um cemitério de indústrias e empregos. Mantida esta política, estima-se que o PIB per capita de São Paulo cairá da terceira posição no ranking nacional para 11º lugar até 2012.

10- Especulação e miséria

Como resultado desta orientação ultraliberal, as contradições sociais se agravaram. A minoria parasitária, que vive dos juros das dívidas públicas, saiu ganhando. O número de famílias ricas saltou de 191 mil para 674 mil na última década - pulou de 37,8% para 58% do total de famílias abastadas no Brasil. "Grande parte da elite paulista encontra-se submersa no pacto neoliberal, enquanto beneficiária da financeirização. A riqueza não é mais distribuída entre os vários elos da cadeia de produção. Fica concentrada nas famílias de banqueiros e nas pessoas que as rodeiam", afirma Marcio Pochmann. No outro extremo, o cruel ajuste fiscal e a criminosa privatização entravaram o desenvolvimento, causando elevadas taxas de desemprego, redução de gastos sociais e aumento da miséria e da violência. São Paulo possui hoje o maior número de pobres do país. Em 1980, por exemplo, 44,5% da renda vinham do trabalho; em 2003, caiu para 30%.

Artigo 2: Os neoliberais que "fazem a cabeça" de Alckmin


No debate programático, sem o véu do falso moralismo, o candidato Geraldo Alckmin tem perdido pontos na campanha eleitoral do segundo turno, como atestam as pesquisas que indicam o seu constante declínio. A direita neoliberal não tem programa ou idéias inovadoras, a não ser a repetir de forma piorada a trágica receita de FHC que devastou o país, estagnou a sua economia e bateu recordes de desemprego, miséria e violência. Segundo vários "analistas de pesquisa", a única forma de o candidato direitista evitar uma surra em 29 de outubro, inclusive com a queda da sua votação, é através da fabricação de um "fato novo" - em outros termos, de novas baixarias, armações e factóides, que serão amplificadas pela mídia hegemônica.

Não é para menos que Geraldo Alckmin está atordoado, na total defensiva, sendo obrigado a repetir, de forma teatral e marota, que não extinguirá o Bolsa Família, não privatizará as estatais e nem retirará os direitos trabalhistas e previdenciários. Na prática, os defensores desta candidatura têm medo de divulgar suas reais propostas de governo. Sabem que estas idéias têm forte repulsa na sociedade. Depois de longa demora, talvez temendo a repercussão negativa, a coligação PSDB-PFL só apresentou a sua plataforma em meados de setembro. O texto é um amontoado de generalidades, nem dá para chamar de programa.

Mas, apesar de esconder suas idéias e propostas, não é difícil conhecer qual o projeto da direita neoliberal para o futuro do Brasil. É só analisar a desastrosa experiência de FHC e sua aplicação destrutiva em São Paulo. Outra forma bastante esclarecedora é conhecer o que pensam os principais mentores de Alckmin.

Adoradores do "deus-mercado"

Em abril passado, a revista empresarial Exame publicou uma reportagem bajuladora intitulada "Quem faz a cabeça de Alckmin". Como ela mesma admitia, "embora ainda não tenha avançado além das propostas genéricas para os grandes temas nacionais, o perfil e as idéias dos homens mais próximos a ele fornecem boas linhas do que será o modelo Alckmin". Entre outros mentores do presidenciável, ela citava "estrelas como Pedro Malan e Armínio Fraga, os dois pilares econômicos do governo FHC, até José Pastore, nome mais ligado ao PFL e especialista em relações trabalhistas". Também incluía o ex-secretário da Fazenda de São Paulo, Yoshiaki Nakano, e o ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros.

Mesmo desconhecendo seu programa de governo, a publicação não vacilou em traçar suas linhas básicas. "Se o candidato do PSDB tem um plano de país definido, por algum motivo não deixou até agora que se tornasse público. Mas em suas prioridades para gerar um ambiente favorável ao crescimento econômico, incluem-se a queda do taxa de juro e um substancial corte dos gastos públicos. Sobre a política externa, o candidato tucano tem ouvido defensores de uma guinada radical em relação à que vem sendo adotada pelo governo petista. A prioridade é para temas como o estabelecimento de acordos bilaterais e a retomada de negociações para a formação da Alca". Nesta área, ele teria como seu principal ideólogo o ex-embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa, um partidário xiita do alinhamento automático com os EUA.

Nos meses seguintes, outros nomes foram surgindo na mídia como integrantes da equipe de programa de Geraldo Alckmin. Como coordenador foi indicado o ex-secretário de Ciência e Tecnologia de São Paulo, José Carlos Souza Meirelles, um dos tecnocratas mais próximos do ex-governador. Também apareceram com freqüência como conselheiros o empresário Roberto Giannetti, ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior, os consultor privado Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, a economista Eliana Cardoso e o tributarista Raul Veloso. Na equipe responsável pela política agrária e agrícola surgiu o deputado Xico Graziano, inimigo rancoroso do MST. Abaixo publicamos as idéias de alguns mentores de Alckmin.

Yoshiaki Nakano:

Conforme revela a própria Exame, "Nakano tem no currículo o saneamento das contas de São Paulo. Seu trabalho é considerado um dos mais monumentais ajustes fiscais já realizados na história brasileira... Ele defende idéias como a adoção do déficit nominal zero". A revista apenas não informa que o "monumental ajuste fiscal", que resultou nas demissões e no arrocho salarial de milhares de servidores e na privatização de boa parte do patrimônio público, foi um "monumental fiasco". Quando o tucanato assumiu o governo paulista, em 1995, a dívida pública era de R$ 48,3 bilhões; atualmente, ela é de R$ 146,6 bilhões. Apesar do desastre, ele insiste na tese do déficit nominal zero, através do violento corte dos gastos operacionais com serviços e servidores públicos e a redução da carga tributária para as corporações empresariais.

Luiz Carlos Mendonça de Barros:

Em matéria no jornal Valor Econômico (09/01/06), o ex-ministro de FHC, responsável pela privataria das comunicações, surge como "o provável homem forte da República dos Bandeirantes". Mesmo pregando alterações na política de juros, o que lhe garante certa aura de desenvolvimentista, Mendonção é um ativo militante neoliberal. No artigo "os bons resultados das privatizações" (FSP, 12/08/05), ele faz rasgados elogios ao governo FHC "pela retirada do setor público, federal e estadual, de amplas áreas da economia". Descarado, chega a citar como exemplo de sucesso a privatização da Vale do Rio Doce, um crime de lesa-pátria. No final, lamenta que "no governo Lula, o processo de desestatização ficou paralisado" e prega a imediata "retomada do movimento de redução da participação do Estado". Em outros artigos, sataniza os servidores, bem ao estilo "caçador de marajás" de Collor de Mello, e exige o fim da "gastança pública".

José Pastore:

Reverenciado pelos neoliberais, o sociólogo e consultor do PFL é considerado um ícone da precarização do trabalho. A matéria do Valor o descreve como um defensor "da reforma trabalhista radical, com corte de encargos e direitos, e crítico da obrigatoriedade do abono de férias e do pagamento do FGTS". Com o farto espaço na mídia, Pastore explicita as suas teses destrutivas. "No Brasil, além do fator previdenciário, há que se elevar a idade para se aposentar... As pessoas vivem mais e precisam trabalhar mais tempo... O Brasil terá de enfrentar, já no início do próximo governo, novas mudanças no sistema previdenciário". Em outro texto, ele faz apologia da terceirização. "Na contramão do que ocorre no resto do mundo, o governo Lula apresenta enorme resistência à modernização das leis que tratam do trabalho terceirizado". Também critica, em outro texto, "as dificuldades criadas pela CLT no meio rural", pregando a sua extinção. Como consultor do ex-ministro Francisco Dornelles, no governo FHC, ele preparou o projeto que propunha "a prevalência do negociado sobre o legislado", que escancarava as portas para a flexibilização trabalhista. É um inimigo declarado do sindicalismo, defensor da sua fragmentação e da redução do seu papel.

Maílson da Nóbrega:

Para este ex-ministro, famoso por sua fidelidade canina à ortodoxia neoliberal, "a autonomia formal do Banco Central ajudaria a dissipar dúvidas quanto ao nosso compromisso com as metas fiscais. O PT não tem resposta para esse ponto porque não consegue convencer seus radicais de que a autonomia formal do BC é a decorrência natural do processo democrático". Ele também critica o aumento dos gastos públicos com a contratação de servidores, com reajuste do salário mínimo e com os programas sociais. "Uma parte [do governo] quer aumentos insustentáveis do salário mínimo, e outra quer deteriorar ainda mais o quadro com propostas de aumento da vinculação dos recursos para a educação".

Roberto Giannetti:

O mesmo artigo do jornal Valor afirma que ele é "pouco simpático ao Mercosul no formato atual e cobra a evolução rápida dos acordos comerciais com a Alca e a União Européia". Na recente crise da Petrobras na Bolívia, o sempre servil defensor dos EUA virou uma fera contra o governo de Evo Morales. Criticou a pretensa "omissão do governo, que não defende os interesses dos empresários brasileiros", e pregou o rompimento das relações com o governo boliviano. Ele também dá várias e ásperas entrevistas contra o presidente Hugo Chávez, sempre rotulado de "populista", que estaria colocando em risco "as harmoniosas relações com os EUA em nosso continente". O atual diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Derex) da Fiesp não esconde seu total desacordo com a atual política do Itamaraty.

José Carlos Meirelles:

O ex-secretário de Ciência e Tecnologia não é propriamente um mentor intelectual. Enquadra-se mais no perfil do tecnocrata e dos apadrinhados da famosa "turma de Pinda". Como repetidor de fórmulas prontas, ele gosta de dizer que "Alckmin fará um choque de capitalismo" caso chegue à presidência da República, repetindo o bordão do ex-governador Mario Covas, fabricado pelos marqueteiros da Rede Globo.

Rubens Barbosa:

Presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da poderosa federação das indústrias de São Paulo (Fiesp) e ex-embaixador de FHC nos Estados Unidos, Rubens Barbosa é um ácido crítico da atual política externa do governo Lula. Em vários artigos na mídia, costuma rotulá-la de "terceiro-mundista", atrasada e ideologizada. Em recente artigo na Folha de S.Paulo (09/08/06), não vacilou em defender que "a política brasileira na América do Sul e no Mercosul terá de ser profundamente revista, de modo a restabelecer uma atitude positiva e cooperativa... Com a retomada das negociações na Alca, caso o governo Lula mantenha as atuais posições, o Brasil ficará isolado no contexto sul-americano. Levará tempo até que as nossas relações sejam recolocadas em seu leito natural, como ocorreu até 2002".

Eliana Cardoso:

Ex-servidora do FMI e ex-integrante de "um grupo de leitura que inclui banqueiros e funcionários do Pentágono", segundo revela a revista IstoÉ (19/03/97), a economista baba de ódio do presidente Lula. "O governo diz que quer recuperar os investimentos em infra-estrutura, mas aumenta os gastos com o funcionalismo. Políticas improvisadas marcam a área social. A estratégia Sul-Sul, que encanta o nosso presidente, não encontra ressonância nos países em desenvolvimento. O país permanece isolado na América Latina, enquanto o presidente se vangloria de ter tirado a Alca da agenda de discussões". Depois deste falacioso diagnóstico, apresentado na falida revista direitista Primeira Leitura, ela ainda dá alguns conselhos: "A privatização do BB e da CEF é uma medida indispensável à transparência dos orçamentos e à estabilidade financeira... Os bancos estatais representam empecilho ao crescimento sustentado". Ela também é uma arquiinimiga, segundo o economista Carlos Lessa, da "retomada desenvolvimentista do BNDES".

Raul Veloso:

Tratado pela mídia hegemônica como "um dos maiores especialistas em finanças públicas do país", este economista é um prestativo serviçal do sistema financeiro. Consultor do PFL, ele vive dando declarações favoráveis a um maior arrocho fiscal no país, à demissão de servidores e a novos cortes salariais. Quando do recente aumento do valor do salário mínimo e da correção da tabela do Imposto de Renda, ele ganhou as manchetes dos jornais com suas profecias terroristas sobre "a falência do Estado brasileiro". No jornal O Globo, ele previu: "Mais uma vez o lado fiscal parece ameaçado. E isso pode resultar em mudança de humor do mercado". Até o corrosivo jornalista Sebastião Nery não poupa adjetivos contra o atual conselheiro de Alckmin. "Raul Veloso, agente da Febraban [federação dos banqueiros], é um dos mais exacerbados vampiros sociais do país. Se dependesse dele, não havia Previdência, FGTS, 13º salário, férias, Bolsa Família, nada. Todo o dinheiro do Brasil iria direto para os bancos".

Xico Graziano:

O ex-presidente do Incra no governo FHC e atual deputado federal do PSDB, venerado por latifundiários e por donos de agronegócios, considera a "reforma agrária um atraso" e costuma se referir ao MST como "banditismo social". Numa longa e rancorosa entrevista à revista Primeira Leitura, ele criticou o governo Lula por não reprimir violentamente as ocupações de terra, afirmou que não existe mais terra improdutiva no Brasil e defendeu o agronegócios como o único modelo viável no mercado. Também destilou veneno contra todos os que lutam pela reforma agrária. "Ao lado do MST, você tem um setor muito atrasado da Igreja Católica, aglutinado na Comissão Pastoral da Terra, cujo expoente é o Tomás Balduíno. À esquerda atrasada da Igreja, soma-se a esquerda atrasada petista... E o governo Lula não tem coragem de assumir a modernidade". Já num artigo para o portal direitista E-Agora, ele esbravejou: "O MST é forte porque luta sem tréguas nem amarras, botando medo no Estado. Justiceiros, invocam os cânones divinos e arrebentam cercas... Alguns formadores de opinião, ao verem a marcha vermelha, alimentam uma espécie de fantasia retrógrada da revolução, a vontade de expiar o passado latifundiário. Gera-se, assim, uma benevolência a perdoar o banditismo rural... Inaceitável é ver a prevalência do arbítrio sobre a política, da foice sobre o trabalho. Menos que a economia rural, é a democracia brasileira que está em xeque". Haja reacionarismo!

Plataforma escondida

Ao estudar alguns destes perfis, o jornalista Marco Aurélio Weissheimer, em reportagem na Carta Maior (16/01/06), já havia antecipado o que seria o programa tucano. "Reforma trabalhista radical, com corte de encargos e direitos; privatização de todos os bancos estatais; fusão dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário; adoção do déficit nominal zero; redução das despesas constitucionalmente obrigatórias em áreas como saúde e educação; menor peso ao Mercosul e retomada das negociações da Alca: essas são algumas das idéias defendidas por um grupo de especialistas que vem se reunindo com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), com o objetivo de desenhar o esboço de um eventual programa de governo". Não é para menos que o presidenciável sempre procurou esconder suas propostas.


* Jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB - Partido Comunista do Brasil

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