2 de out de 2009

A aposta na desinformação

Por André luz - Tudo em cima - 01.10.09

Aos verdadeiros donos do poder, aqueles que controlam a mídia, é realmente cômodo que cada um de nós tenha uma visão pessoal e redutora do fracasso. E que, ao mesmo tempo, no plano coletivo tenhamos um comportamento sincronizado e eficiente, como o de um rebanho de gado se deslocando ordeiramente para o abate.


- Texto: Ricardo Melo, Geógrafo (www.olharanalitico.com.br)

- Minino, sai do sereno que faz mal pra bronquite!

Se o leitor não for da minha época, talvez não entenda do que se trata a frase acima. No meu tempo de moleque, o orvalho era chamado de “sereno”. E todas as mães que tinham filhos acometidos de asma ou bronquite achavam que o “sereno” caía do céu noturno e fazia mal aos seus pimpolhos. Depois daquela chamada, normalmente os “mininos” tinham que sair da farra na rua e voltar para dentro de casa. Que frustração!

Hoje, um grande número de pessoas sabe que o orvalho não cai do céu, ele se forma na superfície lisa de carros e plantas, mas com certeza ainda deve existir gente que acredita nos malefícios que o “sereno” faz mal para a saúde.

Na verdade, as mães de antigamente acreditavam em vários sensos comuns desprovidos de “prova científica”, mas não só elas. Até hoje, uma enorme parte da população acredita em coisas totalmente fora de questão.

Vamos nos lembrar de dois exemplos de sensos comuns, muito repetidos por aí:

1 - Reforma Agrária é “conversa de comunista”.

2 – A superpopulação vai levar o mundo à morte pela fome.

O primeiro é para lá de comum. E é totalmente equivocado. Países capitalistas e ricos como EUA e França realizaram as suas Reformas Agrárias há muito tempo. O Japão foi um país de latifúndios, mas só até a invasão do exército dos EUA no fim da II Guerra Mundial, quando o General Mc Arthur dividiu as terras em pequenas propriedades para criar uma classe de agricultores em substituição à influente aristocracia anterior. Na verdade, a Reforma Agrária foi uma etapa importante do desenvolvimento sócio econômico, principalmente no capitalismo.

Gostaria também de esclarecer que não tenho nada contra o comunismo, muitíssimo pelo contrário. Eu inclusive tenho grandes amigos comunistas que, ao contrário do que andaram dizendo por aí, não comem criancinhas.

O senso comum da superpopulação catastrófica global é mais um daqueles bem populares. Muita gente ainda acredita que a expansão da população humana é tão catastrófica que chegaremos ao futuro com um sério problema de falta de espaço para todos. Nessa hipótese, não tardaria muito para que mais da metade dos seres humanos entrasse em um estado de desespero total pela fome. Imagine: hordas de milhões e bilhões de pessoas descontroladas e caçando até ratos pelas ruas. Um mundo onde a agricultura só poderia atender às necessidades de uma ínfima minoria privilegiada.

Se você já teve medo desse filme de terror, já pode esquecê-lo. Quem teve a oportunidade de estudar Geografia e Demografia sabe que a população global não vai crescer eternamente. Na verdade ela vai se equilibrar depois de passarmos pela metade desse século e depois vai iniciar um movimento de decréscimo e envelhecimento. E deve saber também que está comprovado que o mundo de hoje é capaz de suprir além das necessidades alimentares de todos. E que, portanto, a fome é um fato político, um problema resultante da má distribuição da renda e dos recursos globais. Uma vergonha mundial que só tende a piorar por causa do componente ambiental da questão.

Agora, vamos raciocinar um pouco mais sobre o tema desses sensos comuns enganadores. Não é simplesmente incrível que milhões e talvez bilhões de pessoas estejam cultivando opiniões completamente equivocadas a respeito de temas políticos tão sensíveis, como são o caso da Reforma Agrária e o da superpopulação?

E não é curioso que a inversão da verdade normalmente acontece no sentido de formar opiniões “conservadoras”, aquelas opiniões que tendem a nos transformar em massas humanas manobráveis, fatalistas e abertas à manipulação política? Em minha opinião, isso é simplesmente infernal. Essa desinformação disseminada não atinge somente um pequeno grupo dos meus amigos ou do pessoal do bairro onde moro. Ela é um senso comum muito bem disseminado por todas as cidades, estados e países. E aqui fica a pergunta: qual foi a astronômica quantia de recursos usada para espalhar toda essa desinformação e torná-la plausível? Nesse ponto, deixaria a palavra para os profissionais corporativos da mídia global, que está de parabéns pelos seus resultados.

E eu não posso me gabar nem um pouco por estar aqui questionando essas inverdades, afinal para que eu soubesse que esses sensos comuns são pura balela precisei ter acesso privilegiado à Universidade e cursar Geografia. Não sou melhor do que ninguém, o acaso teve boa participação no sentido de que eu descobrisse o que estou relatando agora.

Se você também já caiu em um desses contos do vigário, não fique triste, todo o mundo já caiu um dia ou continua sendo enganado. E o pior de tudo isso é que, com certeza muitos dos que descobriram que foram enganados por um longo período acabam internalizando sentimentos como culpa ou vergonha. E sentimentos como culpa e vergonha são verdadeiras “bombas” contra a mobilização política. É isso justamente o que “eles” querem.

Aos verdadeiros donos do poder, aqueles que controlam a mídia, é realmente cômodo que cada um de nós tenha uma visão pessoal e redutora do fracasso. E que, ao mesmo tempo, no plano coletivo tenhamos um comportamento sincronizado e eficiente, como o de um rebanho de gado se deslocando ordeiramente para o abate.

Um comentário:

RLocatelli Digital disse...

Excelente reflexão. Temos que disseminar a internet (como, aliás, é a proposta do Governo Lula) e, além disso, criar grupos de discussão na Blogosfera, no Orkut, no Twitter, etc, para quebrar os paradigmas construídos pela elite na cabeça das pessoas.