15 de jan de 2012

“A Cracolândia é planejada, o problema ali passa pela desvalorização, pela corrupção e pela especulação imobiliária. Enquanto houver muita gente ganhando dinheiro com ela, não vão resolver o problema de ninguém” - Júlio Lancelotti

Segundo o padre, “Estão querendo resolver pela aparência, os jovens estão se pulverizando pelos cantos da cidade e isso não é resolver problema”


Por Igor Carvalho - SPressoSP 
Apesar da imponência da ação, os resultados apresentados não são representativos (Marcello Casal Jr./ABr)

Na manhã da última terça-feira (3), a Polícia Militar, em operação conjunta com a prefeitura de São Paulo, iniciou uma ação para retirar os usuários de drogas da região conhecida como Cracolândia, em São Paulo. Durante a Operação Nova Luz – que foi apelidada na região de “Operação Sufoco” -, foram feitas 150 abordagens e 4 prisões, sendo 1 em flagrante e 3 procurados pela Justiça, além da apreensão de 21 gramas de cocaína.


A intenção declarada é prender traficantes e reprimir os usuários, coibindo frutos e roubos, além de encontrar pessoas procuradas pela Justiça que estejam escondidas nos imóveis da região. O SPressoSP ouviu o padre Julio Lancellotti, vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, que esteve hoje pela manhã na Cracolândia. “A operação foi pífia e não resolveu o problema de ninguém”, afirmou ele, para em seguida criticar as consequências da ação. “Eles estão querendo resolver pela aparência, os jovens estão se pulverizando pelos cantos da cidade e isso não é resolver problema, é uma operação midiática”.

Os usuários que foram dispersos já começaram a se aglomerar em outras regiões do centro de São Paulo. Lancellotti alega que o problema da Cracolândia é estrutural, e envolve outros interesses que não podem ser combatidos apenas com a força policial. “A Cracolândia é planejada, o problema ali passa pela desvalorização, pela corrupção e pela especulação imobiliária. Enquanto houver muita gente ganhando dinheiro com ela, não vão resolver o problema de ninguém”, garante.

Uma das medidas que podem ser utilizadas na operação em um segundo momento é a internação compulsória. Mais uma vez o padre, que frequenta a região há anos, tece críticas. “Esse tipo de internação é um equívoco, isso é só marketing, mídia pura, eles nem têm onde internar toda essa gente”.

A situação do comércio local

De acordo com o presidente da Associação dos Lojistas da Santa Ifigênia, Paulo Garcia, a operação afetou o comércio de maneira isolada. “Eu não tive conhecimento das lojas fecharem as portas e não soube de nenhum saque na região. O que acontece é que, de maneira ineficaz, a polícia dissolve o grande grupo para outros pequenos espalhados pela região. A ação policial se multiplica e é nociva, assusta. É natural que, de maneira isolada, alguns comércios fechem as portas até que o tumulto seja resolvido. Mas não tive informação de que os usuários tenham efetuados saques”, disse.

Do SPressoSP - 04.01.12

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