2 de jun de 2010

Iara Lee: ‘Eles entraram atirando’


Ativista de direitos humanos desde 2006, quando morou no Líbano e presenciou bombardeio de 34 dias ao país pelas tropas israelenses, e também cineasta instalada em Nova York, a brasileira Iara Lee, de 44 anos, relatou na tarde de ontem os momentos de terror que viveu quando militares da marinha israelense invadiram, na madrugada de segunda-feira, a autodenominada “Frota da Liberdade”, formada por seis embarcações que transportavam dez mil toneladas em ajuda para Gaza e cerca de 700 pessoas de países como Dinamarca, Espanha,

França, Grécia e, principalmente, Turquia, de onde saiu metade dos passageiros.



“Foi uma coisa surpreendente porque foi no meio da noite, na escuridão, em águas internacionais. A gente sabia que haveria uma confrontação, mas não em águas internacionais”, disse Iara, por telefone da prisão de Beer Sheva.


Iara (foto), que tem passaportes brasileiro e americano, ainda aguardava ser libertada. Disse que quando isso acontecer, virá primeiro para o Brasil e só depois voltará a Nova York, onde é proprietária da produtora
Caipirinha Productions, junto com seu marido, o também cineasta americano George Gund. “Do Brasil vou para os Estados Unidos e continuarei as mobilizações. A Justiça não será atingida de maneira brusca, e temos que continuar trabalhando.”


Descendente de coreanos, a cineasta nasceu no estado de São Paulo, assim como as irmãs, Jupira e Jussara. Sempre foi muito ligada ao cinema. Em 1984, aos 19 anos, desistiu do curso de cinema da Universidade de São Paulo (USP), que, segundo ela, contava com baixo investimento. Passou a trabalhar, até 1989, como produtora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, junto com o cineasta e então marido Leon Cakoff.


Após o término da relação, seguiu o caminho das irmãs, foi para Nova York e voltou a cursar cinema. Jupira estava no país desde 1988, onde fez oceanografia e administração e depois abriu um restaurante de comida brasileira. Jussara chegou seis meses depois, estudou moda e se tornou uma renomada estilista.


Em Nova York, Iara conheceu seu o atual marido, com ele fundou a produtora e fez filmes como os documentários Synthetic Pleasures (Prazeres Sintéticos, 1995) sobre os efeitos da tecnologia, Modulations (1998), sobre música eletrônica, e Cultures of Resistance (Cultura de Resistência), sobre artistas do mundo todo que se mobilizam para prevenir conflitos pelo planeta e que se transformou em uma organização com os mesmos fins.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou, por meio de nota que Iara “está bem de saúde e confirmou dispor, na prisão, de alimentos e vestimentas adequadas”. Ela “queixou-se de que as autoridades israelenses não permitiram, (anteontem), que entrasse em contato com a Embaixada do Brasil e afirmou que bagagem e passaportes estavam retidos”.

Ainda segundo o Ministério das Relações Exteriores, “a cidadã brasileira explicou que as autoridades israelenses exigiram, como condição para a sua libertação, que assinasse termo declarando ter entrado ilegalmente em Israel. Iara informou que não pretende assinar o documento, uma vez que foi presa em águas internacionais.”


‘Voltarei e continuarei as mobilizações’

Em entrevista, Iara Lee contou o que ocorreu durante a invasão israelense. “Foi uma coisa surpreendente, porque estava no meio da noite, numa escuridão, em águas internacionais. A gente sabia que ia haver uma confrontação, mas não nas águas internacionais. Na hora em que começaram a invadir, mandaram todas as mulheres para parte de baixo. Então o máximo que eu presenciei em primeira mão, foram os tiros que eu ouvi, eles entraram e começaram a atirar nas pessoas. A primeira tática deles foi cortar todas nossas comunicações por satélite, aí eles atacaram. Disseram que éramos terroristas, uma coisa absurda. Eles entraram na parte das mulheres, eram muitos, muitos. Confiscaram todos nossos telefones, nossas malas que estavam no navio e ainda tiraram todo os conteúdo das malas e colocaram no chão. Voltarei ao Brasil e voltarei aos EUA e continuarei as mobilizações, porque a verdade que é a justiça não será atingida de maneira brusca e temos que continuar trabalhando.”



Governo israelense vai deportar todos os presos até amanhã

Depois que Brasil, China, México, União Europeia e outros países condenaram Israel pela iniciativa de abrir fogo em águas internacionais contra embarcação com fins humanitários, o governo israelense determinou a libertação e a deportação em até 48 horas (até amanhã) das cerca de 700 pessoas presas quando se dirigiam para a Faixa de Gaza transportando declaradas 10 mil toneladas em produtos para assistência social.


O governo brasileiro havia exigido a libertação “pronta e incondicional” da cineasta brasileira Iara Lee e chamou o embaixador israelense em Brasília, Giora Becher, para expressar “indignação”.

Em São Bernardo do Campo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva censurou o ataque de soldados israelenses. Para Lula, não é com ataques dessa natureza que se alcança a paz no Oriente Médio e sim com o diálogo.

Antes de criticar Israel, Lula se referiu ao acordo alcançado por Brasil e Turquia com o Irã em maio.

“Aquilo que os americanos não estavam conquistando há 31 anos, nós conseguimos em 18 horas de conversa, e o Irã resolveu sentar na mesa para negociar numa demonstração de que o diálogo é a melhor forma de resolver os conflitos, não atirando como Israel atirou ontem num barco que ia levar comida para a Faixa de Gaza”.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, voltou a pedir que o bloqueio a Gaza seja suspenso. A marinha israelense, no entanto, informa estar preparada para interceptar outra embarcação que estaria se dirigindo à região.

Os ativistas presos contaram sua versão da história ao começarem a ser libertados. “Não colocamos qualquer resistência, nem se quiséssemos poderíamos. O que poderíamos ter feito contra os comandos que escalaram o convés?”, disse Mihalis Grigoropoulos, que estava a bordo do navio Mavi Marmara, onde a maior parte da violência aconteceu.

“Eles dispararam balas de plástico e ficamos desorientados por causa do uso de dispositivos elétricos”, disse o ativista no aeroporto de Atenas.


Fonte: DSP - 01.06.2010

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