8 de jul de 2009

Relembrar - Boal comenta sobre a TELEVISÃO

em dia com a cidadania
Homenageado pela Unesco, o diretor e dramaturgo Augusto Boal afirma que a televisão pratica “crime estético”

Foi no Théâtre de Ville, em Paris, que Augusto Boal celebrou, 27.03.09, o Dia Mundial do Teatro. Homenageado pela Unesco, o diretor, dramaturgo e ensaísta brasileiro de 78 anos via o trabalho que realiza desde os anos 1960 ser mundialmente aplaudido.

O Teatro do Oprimido, o método que Boal desenvolve desde os anos 1960, é tão conhecido quanto impalpável. Muita gente já ouviu falar dele. Mas o que é, de fato, esse teatro que se propõe a ser, a um só tempo, arte, ação social e movimento político? Boal, ex-integrante do Teatro de Arena e escritor incansável, diz, na entrevista a seguir, que se trata de uma ação capaz de transformar a sociedade e de fazer frente à estética dominante.

CartaCapital: Em poucas palavras, como o senhor definiria o Teatro do Oprimido?

Augusto Boal: Defendemos que todos nós podemos fazer teatro, que todos podemos ser personagens, de fato, de nossas próprias vidas. Por que temos de seguir a estética determinada pela classe dominante? O Teatro do Oprimido traz consigo a estética do oprimido. Ou seja, queremos que as pessoas retomem suas próprias palavras, imagens e sons.

CC: Na prática, isso significa o quê?

AB: Significa compreender que, hoje, todas as formas de expressão e comunicação estão nas mãos dos opressores. O que a televisão oferece é um crime estético. E ainda acham estranho que alguém saia matando quinze pessoas de uma só vez. O cérebro das pessoas está impregnado dessas imagens. As rádios também repetem o mesmo som o tempo todo. Sem falar no tecno, que desregula até marcapasso, e é pior que ouvir gente quebrando tijolo em construção. O que a gente quer, no Teatro do Oprimido, é lutar nestes três campos: palavra, imagem e som.

CC: Dê um exemplo desse trabalho. Como ele é feito, que resultados proporciona?

AB: O Teatro do Oprimido é seguido, por exemplo, pelo MST. Há uns dez anos, eles fundaram um grupo e quase 30 camponeses vieram conhecer o nosso trabalho. Passamos para eles tudo o que podíamos. Eles não vieram para consumir uma técnica, mas para receber instrumentos que pudessem usar em suas terras. Esta é também a ideia do Teatro do Oprimido ponto a ponto, que difunde o trabalho pelo Brasil. Temos multiplicadores do que fazemos aqui no Rio de Janeiro. Estamos em dezesseis estados.

CC: O que significa, para uma organização como o MST, ter grupos de teatro?

AB: Significa ter o direito de tratar de certos assuntos a partir da visão deles, expor uma visão dos acontecimentos que não é aquela dos jornais, que coloca o MST como um bando de brutamontes. O teatro permite que o pensamento que está por trás do movimento seja exposto, retrabalhado.

CC: Em linhas gerais, qual a sua avaliação do teatro brasileiro hoje?

AB: Existe um mundo de teatros no Brasil. Nunca vi um espetáculo no Amazonas ou no Pará, então não posso avaliar. O que posso dizer é que a Lei Rouanet assassinou a criatividade do teatro. Ao transferir do governo, que representa o povo, para as empresas a decisão de onde investir, a lei substitui o pensamento criativo pelo publicitário. Essa lei tem de acabar.

CC: Muitos produtores dizem exatamente o oposto: se acabar a lei, acaba o teatro.

AB: Não é a verdade. Há muitos grupos produzindo por aí. Esse dinheiro da lei deveria ser transferido para um fundo. A verba do fundo seria distribuída de acordo com a avaliação de comissões constituídas pela sociedade. A lei não incentiva companhias como a minha, ou as de Zé Celso (Martinez Corrêa), Antunes Filho, Aderbal (Freire Filho) ou grupos como o Tapa. Ela só funciona para projetos isolados, individualistas. Se eu depender do apoio de uma empresa de macarrão, como vou produzir uma peça como Ralé, de Gorki, que fala sobre a fome?

CC: Qual a sua avaliação do Ministério da Cultura?

AB: Desde que o Gilberto Gil assumiu, temos, pela primeira vez, um Ministério da Cultura. Antes, até houve pessoas interessantes na pasta, mas nunca um ministério de fato. Também acho que, pela primeira vez, deixou-se de pensar em cultura apenas como erudição, no sentido dos grandes clássicos literários, dos grandes pintores. O governo indicou que o Brasil deveria se apropriar do que já existia, daquilo que o povo faz. A cultura não é apenas o que o povo consome, é também o que o povo produz. Os pontos de cultura são isso, eles apoiam o que já existia.

CC: O Teatro do Oprimido também foi beneficiado, não?

AB: Sim, e o Gil disse até que servimos de inspiração para os pontos de cultura. Mas também trabalhamos com outros ministérios, como Educação e Saúde. Fizemos um trabalho em escolas de cinco cidades, nas proximidades do Rio, e vimos o poder de transformação que o teatro exerceu sobre os alunos.

CC: Exemplifique essa transformação proporcionada pelo teatro.

AB: No caso dos hospitais psiquiátricos, há uma diminuição absurda no consumo de medicamentos. Trabalhamos com a saúde e não com a doença mental. Procuramos ativar a parte saudável do cérebro doente, estimulá-lo no que tem de vivo e criativo. Com isso, o teatro é capaz de devolver ao convívio social alguém que tinha se isolado. Nas comunidades carentes acontece o mesmo. Os programas populares da televisão são um massacre, impedem que as pessoas percebam o que está dentro delas. Elas apenas consomem o que lhes é imposto. O Teatro do Oprimido procura ajudá-las a encontrar seus próprios meios de expressão.

CC: Que episódios, nessas andanças, mostraram ao senhor o sentido do seu trabalho?

AB: Vários. Lembro de um presídio, no interior de São Paulo, que funcionava como um leprosário. A população da cidade queria o isolamento total daqueles presos. Resolvemos fazer uma peça de teatro, com os presos, no meio de uma praça pública, e um morador era chamado para entrar em cena. Isso amenizou aquela relação conflituosa e violenta. Também lembro de um preso que era engraçado e, numa cena, fez uma menina de 10 anos rir. A menina foi elogiá-lo. Ele se vira para mim e diz: “É a primeira vez na minha vida que alguém me diz que eu sirvo para alguma coisa”.

CC: Na semana passada, o senhor estava na França, recebendo uma homenagem da Unesco. Aqui no Brasil o senhor se considera reconhecido?

AB: Sou reconhecido no meu trabalho, mas pela mídia, não. A imprensa só se interessaria pelo nosso grupo se formássemos três bailarinos que fossem dançar no Bolshoi. A mídia gosta de campeões. Campeão de Fórmula 1, filme campeão de bilheteria, qualquer coisa que chegue na frente, que represente a vitória. Mas o ser humano não é cavalo de corrida.

CC: Nos anos 1950, o senhor fez parte do Teatro de Arena, que teve grande projeção e, ao seguir o caminho do Teatro do Oprimido, mudou o rumo da sua carreira. Foi consciente essa escolha?

AB: Totalmente. A escolha individualista nunca esteve no meu horizonte. Quando era pequeno e trabalhava na padaria do meu pai, via aqueles operários que passavam o dia com um pão com manteiga e uma média e pensava: “Isso não pode continuar assim”. Eu acredito na solidariedade. Estou com 78 anos. Isso é muito tempo. Foi outro dia que nasci e não deu tempo de fazer nem metade do que eu queria. Mas, mesmo com todas as dificuldades, o Teatro do Oprimido me realizou. Cidadão não é aquele que vive em sociedade, cidadão é aquele que transforma. E acredito que o Teatro do Oprimido tenha deixado alguma coisa para o mundo.

por Ana Paula Sousa - 28.03.09 - Carta na Escola

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