27 de jul de 2009

"Para a prefeitura de São Paulo, 'revitalizar' o centro é mais importante do que 'revitalizar' as pessoas que não tem onde se abrigar."

Governando através da janelinha do carro, uma coletânea de Andrea Matarazzo

moradorrua

Entre as medidas para a “revitalização” do centro de São Paulo está dar um jeito de sumir com as pessoas em situação de rua. Eles enfeiam o bairro e espantam a classe média consumidora.

Para a prefeitura de São Paulo, “revitalizar” o centro é mais importante do que “revitalizar” as pessoas que não tem onde se abrigar. Já que a prefeitura não pode simplesmente matá-los, a solução encontrada foi levá-los à morte.

A distribuição de comida, por exemplo, feita por entidades religiosas e outros grupos foi proibida na área central. Ou seja, é proibido oferecer comida a quem você acha que precisa. Multar um grupo de pessoas que doa uma cumbuca de sopa para quem está congelando na rua, parece-me o resumo mais conciso da perversidade da atual política para o centro.

Na madrugada paulistana, guardas municipais espantam quem dorme nas ruas com a esperada delicadeza, enquanto a equipe de garis recolhe colchões, sacolas, papelão e outros pertences. O caminhão-pipa lava as calçadas e escadarias; as pessoas, então, zanzam sem rumo.

É crime ser miserável. E é crime defender seus direitos.

O secretário das subprefeituras Andrea Matarazzo, um pouco em baixa nos bastidores do poder paulistano, encontrou uma boa forma de propagandear suas idéias: postar no twitter. Com a promessa de atender a população diretamente através do canal, as frases postadas revelam, num tom politicamente correto, sua forma de pensar.

Eis algumas frases do Secretário, seguidas de nossos comentários.

No centro, muitos moradores de rua nas marquises da Av são joão (no início num bingo abandonado) e na Boa vista. Centro velho esta quase bom

Poxa, o centro está quase bom. Se todos os moradores de rua morressem de uma vez só, ficaria ótimo.

Não tem perigo. O que é sim, é muito triste. Claro que não desço do carro. Embora os dependentes da novaluz não oferecem perigo

Conheço bem a realidade. Vou sozinho, guiando. Um pouco de segurança é preciso. Vou quase todas as noites

[à Luz, chamada por muitos de "cracolândia"]

Trata-se de uma técnica de observação da fauna selvagem? Uma técnica de camuflagem? Ou é apenas a sensação de segurança trazida por uma tonelada de aço com arranque rápido? Se “não tem perigo” qual seria o motivo de “conhecer a realidade” de dentro do carro? Quem seriam os perigosos? Os moradores do bairro?

Na Novaluz foram lacrados e emparedados 22 estabelecimentos entre ontem e hoje. Maioria botecos ou depósitos.Outras áreas do centro em ordem

Secretário, ontem, passando de carro por uma rua do centro, parei no semáforo e pude ver, em frente a um casarão antigo, um punhado de pessoas conversando. Uma criançada danada correndo, alguns bebendo, uma bagunça. Fiquei imaginando como aquelas pessoas podiam morar naquele lugar. Deve ser uma pensão ou até imóvel invadido, não sei, mas sei que o local era totalmente insalubre e sem qualquer segurança.

Poucos metros a frente, avistei três botecos, um ao lado do outro. Nem botecos eram, eram dessas portinhas onde se juntam bêbados, desempregados e mulheres que gostam dessa vida.

Como sei que o senhor é o secretário que mais se dedica ao centro, peço providências. Lugares nestas condições não podem ser tolerados. Muito menos no centro, onde começou esta cidade que tanto amamos.

Moradores de locais interditados em operação no Centro de SP não aceitam ir para abrigos da prefeitura, reportagem, Rácio CBN
Para Andrea Matarazzo catadores são problema, artigo, Panóptico
Centro Vivo, artigo, Panóptico
”É difícil ganhar uma eleição twittando”, reportagem e entrevista, Estadão

De Panóptico - 27.07.09

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